Jan van Hövell, ex-advogado de fusões e aquisições em Amsterdã, trocou a carreira corporativa pelo desafio de prover acesso ao esporte em campos de refugiados globais. Após uma experiência em 2004 no campo de Buduburam, em Gana, o fundador da KLABU percebeu que a assistência humanitária tradicional, focada estritamente na sobrevivência básica, ignorava a necessidade de recreação e conexão social. A iniciativa, que começou como um projeto pessoal, evoluiu para uma fundação que hoje opera dez centros comunitários em países como Quênia, Bangladesh e Brasil.
O modelo operacional da KLABU baseia-se na instalação de contêineres adaptados, equipados com painéis solares, acesso à internet, sistemas de som e bibliotecas de equipamentos esportivos. A estratégia visa mitigar o isolamento em locais onde o tempo médio de permanência dos deslocados forçados atinge duas décadas. Segundo reportagem da Fortune, a organização busca escalar sua presença para alcançar dois milhões de pessoas até 2050, transformando o conceito de ajuda humanitária em uma estrutura de clube esportivo autossustentável.
A transição do direito para o impacto social
A trajetória de van Hövell reflete uma mudança crescente no setor de impacto, onde profissionais de alta performance aplicam metodologias de eficiência corporativa em causas sociais. Durante a fase inicial da KLABU, o fundador conciliou a estruturação da fundação com o trabalho como DJ em eventos corporativos, garantindo a viabilidade financeira do projeto até que o modelo ganhasse tração. A fundação foi formalmente estabelecida em 2019, focando em suprir uma lacuna negligenciada pela maioria das agências internacionais: a falta de infraestrutura para lazer em assentamentos de longo prazo.
O uso de contêineres como unidades modulares permite uma implantação ágil e adaptável às condições precárias de campos de refugiados. A integração de tecnologia, como o acesso a Wi-Fi e energia renovável, transforma esses espaços em hubs comunitários. Ao tratar os refugiados como membros de um clube, a KLABU tenta devolver uma camada de dignidade e identidade que frequentemente se perde nos processos de deslocamento forçado.
Mecanismos de sustentabilidade e parcerias
O desafio de escala da KLABU é endereçado por meio de parcerias estratégicas e um modelo de negócios híbrido. A colaboração com o Paris Saint-Germain (PSG) no campo de Cox’s Bazar, em Bangladesh, exemplifica a busca por soluções móveis para atender populações numerosas. Além disso, a fundação diversificou suas fontes de receita ao desenhar e vender vestuário esportivo globalmente, reinvestindo 50% dos lucros na manutenção dos centros.
A meta de atingir 400 mil membros, superando o Bayern de Munique, reflete a ambição de transformar a KLABU na maior agremiação esportiva do mundo. O programa de membros, lançado em 2026, cobra uma taxa mensal de 1 euro, valor estimado para cobrir o custo de acesso de um indivíduo a um clubhouse. Esse mecanismo busca não apenas a autossuficiência comercial, mas também fortalecer o senso de pertencimento entre os usuários.
Implicações para o ecossistema humanitário
A atuação da KLABU levanta questões sobre o papel da iniciativa privada no suporte a crises migratórias de longa duração. Ao envolver marcas como adidas e empresas de tecnologia como a Mews, a fundação conecta o mercado consumidor global às realidades de campos em países como o Brasil, onde a organização atua em Boa Vista. A presença de empresas privadas pode ser um catalisador para aumentar a visibilidade e o financiamento de projetos que, historicamente, dependiam exclusivamente de orçamentos públicos ou de agências da ONU.
Contudo, a dependência de parcerias comerciais traz o desafio de manter a neutralidade e o foco no bem-estar social a longo prazo. A transição de uma entidade puramente filantrópica para uma que comercializa produtos esportivos exige um equilíbrio rigoroso entre a missão humanitária e a eficiência operacional necessária para a sustentabilidade. A expansão para novos territórios, como Malawi e Uganda, testará a capacidade da fundação em manter a qualidade do serviço em diferentes contextos regulatórios e culturais.
Perspectivas e desafios futuros
O futuro da KLABU depende da sua capacidade de manter a relevância em um cenário global com 120 milhões de pessoas deslocadas. A meta de 300 centros até 2050 exigirá não apenas capital, mas uma infraestrutura logística complexa em regiões de difícil acesso. A incerteza sobre a longevidade dos conflitos e as mudanças nas políticas migratórias internacionais continuam sendo variáveis críticas para a operação da fundação.
Observar como a KLABU gerenciará a transição para um modelo de larga escala, mantendo a essência comunitária que define seus centros hoje, será um ponto de atenção para investidores de impacto e gestores públicos. A pergunta central permanece se o modelo de clube esportivo conseguirá, de fato, transpor as barreiras de exclusão social e criar um legado duradouro para gerações nascidas em campos de refugiados.
A busca por um modelo que una a paixão pelo esporte à necessidade urgente de dignidade em assentamentos reflete uma mudança de paradigma. Resta saber se essa estrutura conseguirá escala suficiente para transformar a experiência de vida de milhões de pessoas que, hoje, vivem à margem das políticas públicas tradicionais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





