Oito décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma peculiaridade diplomática persiste entre Japão e Rússia: a ausência de um tratado de paz formal. Embora as relações diplomáticas tenham sido restabelecidas em 1956, um obstáculo territorial – a disputa por quatro ilhas no arquipélago das Curilas – impede a conclusão definitiva do conflito. A União Soviética ocupou estas ilhas, conhecidas no Japão como Territórios do Norte, nas últimas semanas de 1945, após a capitulação japonesa. Tóquio, por sua vez, nunca aceitou a incorporação desses territórios ao território soviético, alegando que são parte integrante de seu país. Moscou sustenta que a soberania soviética sobre as Curilas do Sul é um resultado legítimo da Segunda Guerra Mundial.

O impasse territorial e as negociações frustradas

A declaração conjunta de 1956 pôs fim formalmente ao estado de guerra e restaurou as relações diplomáticas, mas deixou a questão do tratado de paz em aberto. A União Soviética concordou em entregar as ilhas Habomai e Shikotan ao Japão após a assinatura, mas as diferenças sobre Kunashiri e Etorofu permaneceram irresolutas. A fórmula nunca foi executada, e as quatro ilhas continuaram sob controle soviético. Após o colapso da URSS, novas tentativas de negociação foram realizadas, com o presidente Vladimir Putin e o então primeiro-ministro japonês Yoshiro Mori reconhecendo em 2001 a declaração de 1956 como ponto de partida. O Japão, ao retornar Abe ao poder em 2012, fez do reaproximamento com Moscou uma prioridade diplomática, realizando cerca de vinte encontros com Putin e buscando cooperação econômica, mesmo após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014. Contudo, nenhuma dessas iniciativas conseguiu romper o impasse, enquanto Moscou reforçava sua presença militar nas ilhas.

A guerra na Ucrânia e o recrudescimento das tensões

A invasão russa da Ucrânia em 2022 alterou drasticamente o cenário. O Japão aderiu às sanções contra Moscou e endureceu seu discurso sobre os Territórios do Norte. Em resposta, a Rússia suspendeu as negociações do tratado de paz e os programas que permitiam a ex-residentes japoneses visitar as ilhas e os túmulos de seus familiares. Atualmente, o governo japonês mantém oficialmente o objetivo de resolver a soberania das quatro ilhas para concluir o tratado, mas reconhece a complexidade das relações bilaterais em virtude da guerra na Ucrânia. A militarização russa das ilhas, que inclui exercícios militares e o reforço do seu contingente, é vista por Tóquio como inaceitável, ainda que a Rússia administre de fato o arquipélago.

A proximidade geográfica e a realidade no terreno

A cidade de Nemuro, na ilha de Hokkaido, no extremo leste do Japão, exemplifica a proximidade geográfica da disputa. Do cabo Nosappu, apenas 3,7 quilômetros de água separam o Japão da ilha russa mais próxima, com as ilhas visíveis em dias claros. Cerca de 4.700 ex-residentes japoneses, com idade média próxima aos 90 anos, ainda vivem no Japão, mas as visitas aos cemitérios de seus familiares foram suspensas, intensificando a sensação de perda e distância.

O futuro incerto do tratado de paz

O conflito territorial entre Japão e Rússia permanece em um estado de suspensão, alimentado por décadas de divergências históricas e agudizado pelas atuais tensões geopolíticas. A contínua militarização russa das ilhas indica uma postura firme de Moscou, que parece relutante em ceder em seus termos. Para o Japão, a resolução da disputa territorial é crucial não apenas para formalizar o fim da Segunda Guerra Mundial, mas também para sua estratégia de segurança regional. As relações bilaterais enfrentam um momento de profunda dificuldade, e a possibilidade de um tratado de paz nos próximos anos parece distante, com a guerra na Ucrânia servindo como um catalisador para o aprofundamento das divisões.

A anomalia diplomática entre Japão e Rússia, que se arrasta por 81 anos, serve como um lembrete da complexidade das relações internacionais e de como questões históricas não resolvidas podem continuar a moldar a geopolítica contemporânea. A esperança de um fechamento definitivo para este capítulo da história mundial, agora, parece mais remota do que nunca. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka