Pela primeira vez em sua história, o Japão registrou mais de 100 mil pessoas com idade superior a 100 anos. O número, que seria suficiente para lotar um estádio de futebol, expõe uma realidade demográfica complexa e uma crescente pressão sobre as finanças do país, segundo reportagem da Fortune.
O marco não é um evento isolado, mas o sintoma de uma equação insustentável: o envelhecimento acelerado da população combinado a taxas de fertilidade em mínimas recordes. O resultado é um sistema de previdência e saúde cada vez mais sobrecarregado, com um terço da população japonesa já dependente de pensões públicas.
A matemática da previdência
A pressão fiscal é imediata e quantificável. Para o próximo ano fiscal, o ministério da saúde japonês solicitou um orçamento de US$ 218 bilhões apenas para cobrir despesas com pensões e cuidados médicos, o que representa cerca de um quarto de todas as requisições orçamentárias do governo. A tendência é de alta contínua, uma vez que o número de centenários cresce há 56 anos consecutivos.
O desequilíbrio estrutural reside na base do sistema: uma força de trabalho em encolhimento precisa sustentar uma população de aposentados cada vez maior e mais longeva. Este cenário força o governo a buscar soluções que vão além de simples ajustes fiscais, tocando em questões sensíveis como a política imigratória e a organização do mercado de trabalho.
A fronteira da imigração
A crise demográfica se reflete diretamente na escassez de mão de obra, especialmente no setor de cuidados a idosos. O governo estima que precisará de 2,4 milhões de cuidadores em 2026, um aumento significativo em relação aos 2,1 milhões de 2024. A solução encontrada foi flexibilizar suas políticas de imigração, tradicionalmente restritivas.
Para suprir a demanda, o Japão está recrutando ativamente trabalhadores do exterior. Após atingir 66 mil profissionais sob um programa de vistos para trabalhadores qualificados, o governo planeja permitir a entrada de quase o triplo desse número em uma nova modalidade. É uma concessão pragmática, ditada pela urgência demográfica, que pode redefinir o perfil social do país nas próximas décadas.
O caso japonês serve como um laboratório para o futuro de muitas nações desenvolvidas. As decisões tomadas hoje em Tóquio para gerir a longevidade e a baixa natalidade serão estudadas por economias que, como o Brasil, caminham na mesma direção demográfica, ainda que em um ritmo diferente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





