Em um fascinante entrelaçamento de arte e ciência, o artista Adrien Lucca e uma equipe multidisciplinar apresentaram o projeto "Parallel World" no Festival Ars Electronica de 2026. A instalação é um jardim vivo, composto por plantas reais e iluminado por um sistema de LEDs controlado por computador, que se transforma para simular a maneira como as flores podem ser percebidas por mariposas. O objetivo é demonstrar que a aparência de um ambiente natural é multifacetada, variando drasticamente dependendo do observador.
Sob diferentes espectros de luz, o mesmo arranjo de plantas exibe composições de cores distintas. Folhas verdes podem assumir tons escuros, enquanto as flores se destacam com brilho incomum. Essa mudança cromática não se deve a alterações nas plantas, mas sim às ondas de luz que incidem sobre elas e refletem de volta ao espectador. A premissa é simples, mas profunda: as cores que associamos a um jardim são apenas uma interpretação possível, e outras criaturas podem ter uma experiência visual radicalmente diferente do mesmo espaço.
O Mundo das Mariposas: Uma Visão Além do Humano
A obra de Lucca inspira-se no sistema visual da mariposa-esfinge-elefante (Deilephila elpenor), um polinizador noturno com notável capacidade de distinguir cores mesmo em condições de luz extremamente tênue. Enquanto os humanos perdem gradualmente a percepção de cores ao anoitecer, esses insetos conseguem identificar flores sob a fraca luz do céu noturno. Seus olhos são sensíveis a comprimentos de onda ultravioleta, além das regiões azul e verde do espectro, permitindo-lhes acessar informações visuais inacessíveis à percepção humana. Pesquisas indicam que essa espécie é capaz de diferenciar cores em condições comparáveis à luz de estrelas distantes.
Lucca, juntamente com a cientista de cores Ali Aiman Raza, o pesquisador Colas Schretter e o biólogo Marko Ilić, utilizou esculturas de luz programáveis para traduzir aspectos do ambiente visual da mariposa em cores que os visitantes humanos pudessem experimentar. Embora a tradução tenha suas limitações — olhos humanos não percebem ultravioleta diretamente e olhos compostos de insetos processam informações de forma diferente —, o jardim oferece uma maneira tangível de aproximar uma experiência sensorial normalmente inatingível.
Transformando a Paisagem com Luz Programável
O projeto "Parallel World" é a evolução de experimentos anteriores de Lucca com pigmentação vegetal e luz artificial. Em 2022, ele colaborou com a LMNO Gallery e a produtora de sementes Ecosem na instalação "Mondes parallèles", que explorava como a manipulação do espectro de luz podia alterar a percepção das cores em um canteiro de flores silvestres. Essa experiência inicial já evidenciava como as plantas desenvolveram características visuais em sua longa coevolução com insetos polinizadores.
Durante uma residência em 2024, Lucca focou especificamente na mariposa-esfinge-elefante e nas cores do crepúsculo. Sua exposição "À l’aube du crépuscule" (Ao Amanhecer do Crepúsculo) em 2025 apresentou pinturas e esculturas luminosas que rastreavam as mudanças de luz ao entardecer, investigando o amplo campo de visão do inseto e sua sensibilidade a cores invisíveis aos humanos. O jardim vivo estende essa pesquisa, permitindo ao público observar diretamente essas diferenças.
Implicações para a Iluminação Artificial e a Biodiversidade
Para além do contexto artístico, a pesquisa levanta questões cruciais sobre o impacto da iluminação artificial em paisagens contemporâneas. As cores e padrões que as flores evoluíram para atrair polinizadores, incluindo marcas visíveis em ultravioleta, dependem da luz que as ilumina. Postes de luz e outras fontes de iluminação artificial podem, portanto, alterar os sinais visuais disponíveis para insetos após o anoitecer. Estudos indicam que a visitação noturna de flores diminui significativamente em áreas artificialmente iluminadas, com consequências diretas para a reprodução das plantas.
Os efeitos variam conforme o tipo de iluminação. Pesquisas que modelam o sistema visual da mariposa-esfinge-elefante mostram como diferentes espectros de luz artificial influenciam a visibilidade das flores contra a folhagem. Enquanto algumas fontes de luz preservam ou realçam contrastes, outras, como a iluminação laranja de banda estreita, dificultam a distinção das cores florais para o inseto. Isso sugere que o comprimento de onda e a intensidade da luz artificial podem alterar a navegação dos insetos em seus ambientes, mesmo que pareçam normais para os olhos humanos.
Repensando o Design para Outras Espécies
A instalação "Parallel World", apresentada em Gdańsk e posteriormente no Ars Electronica, insere essas reflexões em um cenário físico imediato. O trabalho de Lucca explora a relação entre luz e percepção, frequentemente através de sistemas de iluminação customizados. Neste projeto, os mesmos métodos são aplicados a plantas vivas e aos animais que interagem com elas, convidando à reflexão sobre como o design de iluminação pode considerar formas de visão não humanas, especialmente em paisagens públicas onde a atividade humana se sobrepõe à vida selvagem noturna.
A obra deixa em aberto a possibilidade de projetar ambientes que atendam às necessidades sensoriais de outras espécies. A iluminação pública e os jardins são geralmente concebidos com base nas necessidades visuais humanas, ignorando que sua luz se estende a habitats de inúmeros outros organismos. Em "Parallel World", uma simples mudança na iluminação revela o quanto uma paisagem familiar é dependente do observador, oferecendo um vislumbre de um mundo visual coexistente com o nosso.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom




