A L’Alliance New York inaugura esta noite a série "Why? Because . . .", uma retrospectiva dedicada à obra de Jean-Pierre Gorin, cineasta, teórico e professor emérito da Universidade da Califórnia, San Diego. O programa, que se estende até 11 de junho, oferece uma oportunidade rara de revisitar a trajetória de um dos nomes mais instigantes do cinema experimental do século XX, conhecido mundialmente por sua parceria com Jean-Luc Godard no Grupo Dziga Vertov.
Segundo o programador Jake Perlin, a influência do coletivo Dziga Vertov, apesar de sua curta duração entre o final dos anos 60 e início dos anos 70, permanece inegável. Gorin foi o mentor teórico por trás da tentativa de extrair o "potencial revolucionário" da estética cinematográfica. Após esse período, o cineasta mudou-se para os Estados Unidos, onde desenvolveu a chamada "trilogia do Sul da Califórnia", composta pelos filmes Poto and Cabengo, Routine Pleasures e My Crasy Life.
A transição da teoria para a prática
A mudança de Gorin da França para a Califórnia, incentivada pelo convite do artista Manny Farber, marcou uma virada em sua carreira. Se no período do grupo Dziga Vertov o foco era a experimentação política militante, sua fase americana revelou um olhar quase antropológico sobre as margens da sociedade. Filmes como Poto and Cabengo desafiam classificações tradicionais, funcionando como ensaios que investigam a comunicação humana e as estruturas sociais.
O crítico Kent Jones descreveu essa fase como um exercício de "desconstrução incessante". Para Jones, os filmes de Gorin não se congelam em uma forma única; eles operam como organismos em movimento constante, onde cada movimento retórico do cineasta é contrabalançado por uma nova interrogação. Essa abordagem "inelegante" e crua é o que confere a essas obras uma vitalidade que resiste ao tempo e à sofisticada severidade acadêmica.
O diálogo com a história do cinema
A curadoria da série na L’Alliance reflete o método de Gorin, que estrutura sua seleção de filmes através de perguntas e respostas provocativas. Ao escolher Toni (1935), de Jean Renoir, Gorin questiona por que ignoramos o pensamento sobre a década de 1930, sugerindo que a obra antecipa a sensibilidade do neorrealismo italiano. A conexão com o passado não é nostálgica, mas sim um exercício de memória política.
Essa linha histórica atravessa também Lumière d’été (1943), de Jean Grémillon. Gorin traça um paralelo entre o otimismo coletivo da Frente Popular francesa e a decadência moral sob o regime de Vichy. Para o cineasta, esses filmes não são apenas artefatos históricos, mas documentos que capturam as tensões entre o indivíduo e as estruturas de poder, mantendo uma relevância inquietante para o espectador contemporâneo.
A desmistificação do radicalismo
Um dos pontos altos da retrospectiva é a discussão sobre Vladimir e Rosa (1971), filme que apresenta Godard e Gorin em uma farsa brechtiana sobre o julgamento dos "Chicago Seven". Gorin propõe uma releitura necessária desse período, afastando a pecha de "maoísmo de escola dominical" frequentemente atribuída ao seu trabalho coletivo. Ele defende a ideia de que o que faziam eram, na verdade, "experimentos de garagem punk" movidos pelo "faça você mesmo".
Essa visão desmistifica a imagem do "cineasta militante" e revela um artista preocupado com a linguagem e a forma. A análise de Richard Brody reforça essa percepção, ao descrever o filme como uma investigação psicológica do radical moderno, que utiliza a tecnologia de baixa fidelidade para criar um novo tipo de voz cinematográfica, capaz de confrontar o espectador com suas próprias contradições.
O futuro da memória cinematográfica
O que permanece em aberto, após décadas de produção, é como a nova geração de cineastas e teóricos absorverá a lição de Gorin. Sua capacidade de transitar entre a teoria densa e a prática experimental continua sendo um modelo para quem busca entender o cinema como uma ferramenta de intervenção social. A retrospectiva em Nova York não é apenas um tributo, mas um convite para que o espectador reavalie a própria relação com a imagem em movimento.
Observar a trajetória de Gorin é, em última análise, um exercício de vigilância intelectual. A pergunta que ele lança sobre o cinema de 1930 ecoa hoje: quem ignora a história do pensamento cinematográfico corre o risco de perder a capacidade de sentir o "coração acelerar" diante de um enquadramento. A série em Nova York é um lembrete de que o cinema, em sua forma mais pura, é um organismo vivo que exige atenção constante.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





