Jeremy Grantham, conhecido por identificar bolhas de mercado ao longo de cinco décadas, traçou um cenário cauteloso para os investidores que apostam na manutenção da dominância das Big Techs. Em entrevista recente ao podcast Excess Returns, o cofundador da GMO argumentou que a era de monopólios protegidos está sendo substituída por um ambiente de competição acirrada, impulsionado pela própria corrida pela inteligência artificial.
A tese de Grantham sugere que o chamado "Magnificent 7" — grupo que sustentou o rali de Wall Street nos últimos anos — operou sob uma permissividade regulatória incomum nas últimas duas décadas. Segundo o investidor, esse período permitiu a consolidação de margens de lucro excepcionais, uma janela que ele acredita estar se fechando rapidamente devido às pressões competitivas impostas pela infraestrutura de IA.
O fim da era de ouro das margens
O argumento central de Grantham é que a IA não está apenas expandindo o poder das incumbentes, mas forçando-as a uma disputa de capital sem precedentes. Com Amazon, Google, Meta e Microsoft destinando centenas de bilhões de dólares em despesas de capital, o mercado testemunha um desvio de recursos que, historicamente, seriam destinados a recompras de ações ou dividendos. A leitura é que, em vez de consolidar vantagens, as empresas estão drenando seus fossos competitivos para financiar uma guerra de infraestrutura.
Essa dinâmica remete, na visão do investidor, às revoluções tecnológicas das décadas de 1970 e 1980. Quando o investimento em novas tecnologias se torna o custo básico para operar, as margens de lucro tendem a se normalizar. Grantham projeta que a lucratividade agregada das corporações não deverá sofrer um aumento notável, à medida que a vantagem competitiva inicial de curto prazo se dissipa com a adoção universal da tecnologia.
A armadilha do capex em IA
O mecanismo em jogo é uma aposta existencial. O mercado precifica as maiores empresas de tecnologia com múltiplos elevados sob a premissa de que a IA sustentará margens historicamente altas. No entanto, Grantham observa que, sem esse investimento massivo, a economia dos EUA poderia ter entrado em uma recessão menor em 2023. O cenário atual é descrito como "terra incognita", onde a dependência do gasto em IA como parcela do PIB não possui um roteiro histórico claro de resolução.
Essa dependência cria uma situação onde o mercado pode estar vivenciando uma profecia autorrealizável, mas com riscos latentes de reversão. O investidor aponta que a divergência já aparece nos mercados públicos, com fundos de mercados emergentes apresentando retornos superiores aos índices americanos, sinalizando um movimento de correção de preços em relação aos ativos supervalorizados dos EUA.
Tensões para o ecossistema global
As implicações dessa mudança atingem desde reguladores até investidores de varejo. Se as margens de lucro das Big Techs sofrerem pressão, o impacto será sentido globalmente, dado o peso dessas empresas nos portfólios de aposentadoria e fundos de pensão. Para o ecossistema brasileiro, que frequentemente acompanha as tendências de liquidez globais, a retração dos fluxos de capital das gigantes de tecnologia pode significar uma reavaliação dos prêmios de risco em mercados emergentes.
A tensão entre a necessidade de investir para não perder a relevância e a busca por eficiência operacional define a estratégia atual das Big Techs. A questão central é se o retorno sobre esse capital investido (ROIC) será suficiente para justificar as avaliações atuais de mercado ou se estamos diante de um ciclo de inflação de custos que corroerá o valor para o acionista a longo prazo.
Incertezas no horizonte
O que permanece incerto é a duração dessa fase de gastos intensivos. Grantham não emitiu um sinal de saída definitiva, como fez em 2008, mas observa o mercado com cautela. A capacidade das empresas de monetizar a infraestrutura de IA antes que a competição esgote as margens é a variável que definirá o sucesso ou o fracasso dessa corrida armamentista tecnológica.
Observar a evolução dos balanços trimestrais e a disciplina de capital dessas empresas será essencial nos próximos anos. O mercado permanece à espera de sinais sobre quando a normalização das margens deixará de ser uma teoria para se tornar uma realidade nos demonstrativos financeiros das gigantes de tecnologia.
O debate sobre a sustentabilidade do modelo de negócios das Big Techs na era da IA está apenas começando, e a divergência entre os otimistas da tecnologia e os analistas de valor histórico continuará a ditar o ritmo da volatilidade nos mercados globais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





