Uma escavação nos terrenos do Museu da Torre de Davi, em Jerusalém, revelou uma peça singular: um molde de argila usado para fabricar estatuetas femininas durante o período do Primeiro Templo, entre os séculos VIII e VI a.C. A descoberta foi supervisionada pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA).
O achado resolve um antigo debate arqueológico. Embora inúmeras estatuetas dessa época já tivessem sido encontradas na região, esta é a primeira vez que um molde para sua fabricação aparece em Jerusalém. A questão que persistia era se esses objetos eram produzidos localmente ou importados. A resposta, agora, aponta para uma capacidade de manufatura interna.
Produção local, não importação
O debate sobre a origem das estatuetas era central para entender a economia e a cultura material da antiga Judá. A ausência de ferramentas de produção alimentava a hipótese de que os artefatos chegavam à cidade por meio de rotas comerciais. A descoberta no Kishle, uma antiga prisão que hoje integra o museu, vira essa página. Segundo a reportagem da ARTnews, o molde prova que ao menos parte dessas figuras era criada dentro dos muros de Jerusalém.
O objeto em questão retrata o rosto de uma mulher com traços definidos e um penteado elaborado. Para demonstrar sua função, um especialista da IAA conseguiu usar o molde milenar para fundir uma nova estatueta, confirmando sua viabilidade técnica. A peça se junta a um acervo que inclui também figuras de animais e de cavaleiros, indicando uma produção diversificada.
Um vislumbre do cotidiano antigo
Encontradas em residências, ruas e túmulos, a função exata dessas estatuetas ainda é matéria de discussão acadêmica. As hipóteses variam: poderiam ser amuletos domésticos para promover a fertilidade, objetos de devoção popular ou até mesmo brinquedos infantis. O fato de serem produzidas localmente reforça a ideia de que eram objetos comuns e integrados ao dia a dia da população.
A descoberta não é um evento isolado. O sítio de escavação do Kishle é considerado um dos mais importantes de Jerusalém, por apresentar uma sequência histórica clara e contínua da cidade. Cada objeto encontrado adiciona uma camada de complexidade à nossa compreensão da vida social, religiosa e econômica daquela época, transformando um pequeno pedaço de argila em uma janela para o passado.
O molde não responde a todas as perguntas, mas oferece um ponto de partida concreto para novas linhas de pesquisa. A peça permite que pesquisadores investiguem não apenas o que os antigos habitantes de Jerusalém usavam, mas como e por que produziam seus próprios artefatos culturais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





