A indústria da moda vive um ciclo perpétuo de renovação, onde coleções e diretores criativos se sucedem em um ritmo frenético para atender ao consumo em massa. Contudo, o designer Jiyong Kim escolheu um caminho distinto para sua marca homônima, fundada em 2021. Em vez de se curvar às exigências de escala e volume, Kim utiliza a natureza como ferramenta principal de design, criando peças que desafiam a percepção de valor e durabilidade no vestuário contemporâneo.

Recentemente, durante a feira de moda masculina Pitti Uomo, na Itália, o designer optou por uma exposição em vez do formato tradicional de desfile. A mostra funciona como uma retrospectiva de seus cinco anos de carreira, apresentando desde experimentos iniciais até criações inéditas, reforçando a tese de que a moda pode ser apreciada como um objeto de museu, distanciando-se da descartabilidade comum ao setor.

A estética do tempo e da natureza

O diferencial técnico de JiyongKim reside na técnica de desbotamento solar. Ao expor tecidos à luz do sol por meses, o designer permite que a radiação imprima padrões orgânicos e únicos em cada peça. Esse processo não é apenas estético, mas um exercício de paciência que contrasta diretamente com a produção industrial acelerada. A exposição no Pitti Uomo detalha essa jornada, exibindo não apenas as roupas prontas, mas amostras de tecidos, registros de bastidores e livros de campanha que documentam a evolução de sua assinatura visual.

Além do sol, Kim tem explorado métodos biológicos, como o cultivo de micro-organismos e fungos sobre têxteis, expandindo o vocabulário visual de suas coleções. Ao apresentar 34 casacos longos roxos, cada um exposto ao sol em intervalos de três dias, ele cria uma graduação visual que evidencia o impacto do tempo. Essa abordagem transforma a peça de vestuário em um registro físico da passagem dos dias, conferindo a cada item uma história que não pode ser replicada por máquinas.

Colaborações e a patina do desgaste

A relação de Kim com o design de calçados também segue essa lógica de intervenção orgânica. Sua colaboração mais recente com a PUMA, utilizando o modelo CELL GEO 1, exemplifica essa filosofia. O tênis, originalmente branco, passa por um processo deliberado de exposição a sujeira, umidade e mofo para adquirir uma patina específica. Esse trabalho de construção de camadas reforça a intenção do designer de elevar o desgaste natural ao status de design intencional.

Ao alinhar seus lançamentos atuais com trabalhos anteriores, como os tênis desconstruídos da coleção Primavera/Verão 2026 e os calçados Clarks Wallabees tratados pelo sol, Kim oferece uma visão holística de seu universo. O mecanismo central aqui é o controle do caos: o designer fornece a estrutura, mas deixa que agentes externos — o sol, o fungo, a umidade — finalizem a obra, criando uma tensão entre a intenção do criador e a aleatoriedade do meio ambiente.

Implicações para o mercado de luxo

O posicionamento de JiyongKim levanta questões sobre o futuro do luxo e a sustentabilidade. Em um mercado que busca constantemente o novo, o valor atribuído ao processo de envelhecimento e à singularidade das peças sugere uma mudança de paradigma. Para marcas estabelecidas, a estratégia de Kim serve como um lembrete de que a exclusividade pode ser alcançada por meio da curadoria do tempo, e não apenas pelo preço ou pela escassez artificial de produtos.

Para o consumidor, a proposta convida a uma reflexão sobre a própria relação com o que se veste. Se uma peça pode ganhar valor com o uso e o tempo, a ideia de descartar roupas após uma temporada torna-se menos atraente. Esse movimento, embora de nicho, ressoa com um público que busca autenticidade em um mundo saturado por produtos homogeneizados e fabricados em larga escala.

O futuro da marca e do design

Permanece em aberto como o designer conseguirá escalar sua visão sem comprometer a integridade de seus processos artesanais. O desafio de manter o interesse do mercado sem ceder às pressões de expansão é uma constante para nomes emergentes que buscam manter a independência criativa.

O acompanhamento da trajetória de JiyongKim nos próximos anos revelará se essa abordagem pode influenciar tendências maiores dentro da indústria de moda masculina ou se permanecerá como uma exceção artística em um ecossistema focado no volume.

A transição da moda enquanto mercadoria para a moda como arte reflexiva marca um ponto de inflexão na trajetória da marca, estabelecendo novos padrões de valor para um público cada vez mais atento à origem e à longevidade dos objetos de consumo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety