John Leo Gillen, arquiteto e autor, propõe uma visão radicalmente diferente sobre o que constitui a experiência de uma boate. Nascido e criado nos bastidores do negócio de sua família no oeste da Irlanda, Gillen testemunhou em primeira mão a ascensão e o declínio do clube noturno tradicional. Sua prática, Temporary Pleasure, busca resgatar a essência efêmera e coletiva desses espaços, contrastando com a cultura contemporânea focada na imagem e na performance individual.
O Tempo como Material de Design
Gillen cresceu em um ambiente onde a boate era o centro de tudo. Essa vivência moldou sua perspectiva sobre o tempo como o principal material de design. Para ele, a essência da experiência noturna reside na sua transitoriedade, em momentos que só podem ser vivenciados por quem está presente. "O nightclub oferecia algo radical: um momento suspenso no tempo que só podia ser experimentado por aqueles que tiveram a sorte de estar no lugar certo, na hora certa", afirma Gillen. Essa noção de urgência e impermanência é o cerne de seus projetos, que incluem instalações como Choreomania no Horst Arts & Music e The Superclub no WeCanDance. A ideia é criar espaços que existam apenas por um momento, desaparecendo para ressurgir em outro local, seja um armazém, um estacionamento ou uma praia. A arquitetura que carrega a mensagem da impermanência, segundo Gillen, faz com que as pessoas ajam de forma diferente: mais presentes, mais engajadas, mais vivas. Essa abordagem não é nostalgia, mas uma redefinição do que significa cultura de clube quando seus recipientes tradicionais desaparecem.
A Multidão como Protagonista
Um dos pontos centrais da reflexão de Gillen é a mudança de foco na cultura de clube. Ele argumenta que as boates históricas, das décadas de 1960 e 70, utilizavam luz, som e a própria multidão como material arquitetônico. O objetivo era dissolver o foco central, apagar a hierarquia entre palco e plateia, e fazer com que todos se sentissem parte do espetáculo. "Você não estava assistindo ao show — você estava nele", descreve Gillen. A arquitetura evoluía como um mundo interior total, com elementos de compressão e liberação, escuridão, densidade e anonimato. A multidão era a protagonista, produzindo a cultura em vez de apenas consumi-la. Hoje, segundo ele, essa dinâmica se inverteu. As boates se tornaram mais parecidas com salas de concerto, com DJs em palcos elevados e a atenção voltada para a performance individual, em vez da energia coletiva da pista de dança. "Paramos de ir a um lugar e começamos a ir a um DJ", lamenta Gillen, lembrando de tempos em que DJs como Larry Levan, no Paradise Garage, serviam à pista de dança a partir de um ponto onde não eram vistos, permitindo que a dança e a interação entre as pessoas fossem o centro das atenções.
A Era da Imagem e a Perda da Experiência
A proliferação de câmeras de celular transformou radicalmente a forma como as pessoas interagem com os espaços de clube. Para Gillen, a imagem agora precede a experiência. O valor da boate, que antes residia no que não podia ser totalmente capturado, retransmitido ou verificado – o que vivia na memória, no mito e na distorção – foi substituído pela extração de conteúdo. O momento não é mais vivido por si só, mas para sua vida após a morte como material para redes sociais. Isso muda fundamentalmente o propósito de estar ali e a forma como a experiência é vivida. "Se a imagem é o resultado principal, se a experiência em si não tem valor implícito ou sagrado — por que se reunir fisicamente?", questiona. Ele contrasta a documentação instantânea de hoje com o registro histórico das boates, que ocorria nas margens: flyers, fotografias acidentais, lembranças nebulosas. Essa incompletude era parte do poder, permitindo que a memória e o mito crescessem. A captura instantânea achata essa riqueza, transformando o fragmento em documentação e eliminando a distorção e a narrativa em constante mudança que davam vida à experiência.
Desafios Institucionais e a Luta pela Autenticidade
Ao trabalhar com instituições culturais, Gillen enfrenta o desafio de trazer a energia da cultura underground para esses contextos. Ele observa que a linguagem do clube está em toda parte, mas as condições que a tornam autêntica raramente existem. Instituições muitas vezes buscam a cultura de clube por sua aparência e energia, mas hesitam em oferecer as condições de risco, escuridão e duração que a definem. A questão é se estão dispostas a criar um ambiente onde as pessoas participem genuinamente, tomem riscos e produzam algo juntas, em vez de apenas representar uma história de participação. Gillen acredita que é impossível projetar completamente um clube a partir de fora; é preciso ceder o controle para permitir que uma experiência coletiva e emergente aconteça. A luta maior, ele conclui, não é apenas construir a estrutura física, mas defender o formato da boate e o tipo de experiência coletiva que ele possibilita, desafiando a lógica de festivais e instituições para reacender a chama da autenticidade e da participação genuína. A verdadeira energia reside na impermanência e na entrega coletiva, não na imagem congelada ou no palco centralizado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





