Em um mundo saturado de informações e estímulos rápidos, a capacidade de concentração se tornou um bem escasso. John Wilson, conhecido por sua série "How To with John Wilson", mergulha nessa temática em seu primeiro longa-metragem, "The History of Concrete". No entanto, o título é uma isca; o filme raramente se detém sobre o material que molda nossas cidades. Em vez disso, Wilson nos guia por um labirinto de curiosidades humanas — um tatuador de cadáveres, um funcionário público obcecado por desentupir piscinas. O concreto, onipresente e essencial, é o pano de fundo que o cineasta usa para explorar a nossa própria distração.

A Onipresença Ignorada

A produção anual de concreto, que chega a 30 bilhões de toneladas, supera a de todos os outros materiais de construção combinados. Ele é a espinha dorsal da infraestrutura moderna: edifícios, pontes, estradas, barragens, sistemas de saneamento e defesa. Sem ele, a civilização como a conhecemos — com eletricidade, água potável, transporte e comunicação — seria inimaginável. Contudo, essa ubiquidade o torna invisível. Tornou-se tão comum que raramente notamos sua presença, seu papel fundamental em nossas vidas ou os riscos inerentes à sua deterioração. A antropóloga Julie Soleil Archambault observa que o concreto "frequentemente passa despercebido — muito ubíquo, muito mundano, para merecer muita atenção". Essa invisibilidade é, em si, um problema, pois obscurece a necessidade de manutenção e a magnitude dos desafios que ele enfrenta, como a crise climática.

Concreto e Crise Climática

O concreto não é apenas um material de construção; é também um dos principais vilões da crise climática. A produção de cimento, um de seus componentes cruciais, é responsável por cerca de 8% das emissões globais de carbono. Paradoxalmente, o mesmo material que contribui para o aquecimento global é indispensável para a construção de infraestruturas de adaptação, como os muros de contenção que nos protegem do aumento do nível do mar. Essa dualidade — salvador e destruidor — é um dos muitos aspectos que Wilson parece evitar aprofundar, preferindo saltar para o próximo detalhe peculiar. A reportagem sobre o tema frequentemente esbarra na perplexidade de profissionais da área: como pode um material tão vital ser tão desinteressante para o público em geral?

O Perigo da Distração

"Se algo catastrófico acontecer nesta área nos próximos anos, eu não ficaria surpreso", adverte Sam Schwartz, ex-comissário de trânsito de Nova York, ao apontar para a corrosão de vergalhões sob o Brooklyn-Queens Expressway. Essa estrutura, como grande parte da infraestrutura americana, recebe nota D+ da Sociedade Americana de Engenheiros Civis, indicando um estado "pobre" e "em risco". O custo estimado para elevar o país a um nível aceitável beira os US$ 9 trilhões. A falha em reconhecer a fragilidade do concreto e a necessidade de manutenção contínua, um reflexo da nossa própria distração generalizada, nos expõe a riscos iminentes. Wilson, com seu estilo de edição rápida e fragmentada, captura essa sensação de urgência latente, mas a deixa pairando, não resolvida.

Um Olhar para o Futuro

Ao evitar o tema central, Wilson nos força a confrontar nossa própria relação com o que é familiar e, por isso, negligenciado. O concreto, em sua invisibilidade, representa não apenas os perigos da infraestrutura em colapso, mas também os imensos benefícios que damos como garantidos. A questão que permanece é se essa cegueira coletiva, essa incapacidade de focar no que é essencialmente mundano, mas vital, nos levará a um ponto de ruptura. "The History of Concrete" nos deixa com a imagem incômoda de um mundo construído sobre um material fundamental, mas ignorado, e a pergunta: o que mais estamos deixando de ver?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company