O mercado imobiliário espanhol enfrenta um desafio estrutural que, segundo Jorge Pérez de Leza, CEO da Metrovacesa, reside fundamentalmente na incapacidade da oferta em acompanhar as transformações da sociedade. Durante o Foro Económico y Social del Mediterráneo, realizado em Barcelona, o executivo enfatizou que a escassez de moradias não se resolve apenas com volume, mas com uma segmentação inteligente voltada às novas necessidades da população.

Para a Metrovacesa, o setor de construção precisa abandonar modelos obsoletos e focar em soluções flexíveis. A leitura é que o mercado exige uma resposta rápida para grupos específicos, como estudantes universitários e nômades digitais, que demandam períodos de locação distintos e infraestruturas compartilhadas que não são contempladas pelos projetos habitacionais tradicionais.

A falha na adaptação da oferta

A tese de Pérez de Leza sugere que a indústria da construção civil espanhola tem operado com uma inércia que ignora a evolução dos modos de vida. Enquanto a demanda se fragmenta em perfis diversos, a oferta permanece presa a padrões rígidos de ocupação. O executivo argumenta que a falta de moradias não é apenas um problema estatístico de unidades disponíveis, mas um desalinhamento entre o produto ofertado e o que a economia moderna exige.

Essa visão coloca a responsabilidade sobre o planejamento urbano, que historicamente tem sido lento para incorporar novos conceitos de habitação. A necessidade de flexibilizar o uso de espaços surge como um imperativo para que as empresas do setor consigam capturar o valor gerado por esses novos nichos demográficos, que exigem mobilidade e serviços integrados.

Redensificação como estratégia imediata

Diante da urgência do problema, Pérez de Leza defende a redensificação e o crescimento vertical como ferramentas essenciais de curto prazo. A lógica é aproveitar a infraestrutura e os planos diretores já existentes em áreas urbanas consolidadas, evitando os longos prazos de maturação de novos projetos em zonas periféricas que ainda dependem de investimentos pesados em serviços públicos.

O executivo aponta que a urgência da crise habitacional não permite esperar décadas por soluções estruturais complexas. A estratégia de otimizar o solo urbano já disponível permite uma resposta mais ágil para atenuar a pressão sobre os preços, que têm sido um dos principais entraves para a acessibilidade no mercado imobiliário espanhol.

Tensões entre mercado e regulação

A discussão sobre a oferta habitacional na Espanha reflete um dilema global enfrentado por grandes metrópoles. Enquanto desenvolvedoras buscam maior liberdade para redensificar e inovar, reguladores e o poder público frequentemente impõem barreiras baseadas em planos urbanísticos rígidos. A tensão entre a necessidade de agilidade do mercado e a preservação do tecido urbano é um ponto de atrito constante.

No cenário brasileiro, essa discussão guarda paralelos importantes, especialmente no que diz respeito ao impacto das leis de zoneamento e ao custo da terra em grandes centros. A experiência espanhola, ao destacar a necessidade de diversificar os modelos de moradia, oferece um espelho para as construtoras locais que buscam entender como o design de produto pode ser um diferencial competitivo em tempos de juros elevados e crédito restrito.

O futuro do planejamento habitacional

O que permanece incerto é a capacidade do setor privado de influenciar a agenda pública para acelerar essas mudanças. A transição para um modelo habitacional mais flexível exige não apenas vontade das empresas, mas uma revisão profunda dos marcos regulatórios que ditam o que pode ser construído e como.

O mercado deve observar de perto se as propostas de redensificação ganharão tração política ou se encontrarão resistência social. A eficácia dessa estratégia dependerá da habilidade das construtoras em equilibrar a rentabilidade dos projetos com a pressão crescente por habitações acessíveis em áreas centrais das cidades.

A estratégia da Metrovacesa coloca a oferta no centro do debate, mas a viabilidade dessas soluções depende de um alinhamento raro entre as necessidades do setor imobiliário e as prioridades dos reguladores urbanos. A questão que fica é se a indústria conseguirá, de fato, se antecipar às mudanças sociais ou se continuará a reagir com atraso às transformações demográficas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España