Ao caminhar pelo espaço da galeria Friedman Benda, em Nova York, a sensação é de que a matéria inanimada começou a desenvolver uma vontade própria. Joris Laarman, o designer holandês conhecido por sua intersecção entre o digital e o físico, apresenta ali a exposição 'Symbio', um estudo sobre o que ele chama de 'inteligência material'. Em vez de objetos estáticos, Laarman exibe bancos de concreto que parecem ter crescido do solo, sulcados por padrões orgânicos que lembram tanto códigos de computador quanto as nervuras de uma folha. Não se trata apenas de mobiliário, mas de um manifesto sobre como a tecnologia pode servir de ponte para uma coexistência mais harmoniosa entre o ambiente construído e a vida selvagem.
A transição para o Symbioscene
Laarman situa sua prática em uma era especulativa que ele denomina 'Symbioscene', um período que sucederia o Antropoceno. Para o designer, a tecnologia não deve ser vista como uma força oposta à natureza, mas como uma ferramenta de mediação. Ao utilizar sistemas de reação-difusão — os mesmos padrões matemáticos descritos por Alan Turing na década de 1950 para explicar o crescimento em organismos vivos —, Laarman cria superfícies que não apenas imitam a biologia, mas a convidam a habitar o objeto. É uma abordagem que busca transformar a arquitetura de uma ocupação invasiva em uma plataforma de suporte ecológico.
O concreto como habitat vivo
O elemento central da exposição são os bancos de concreto impresso em 3D, projetados para servir como hospedeiros de musgos, líquens e pequenos insetos. A estrutura interna desses objetos não é maciça; ela esconde canais integrados que auxiliam na drenagem e na retenção de água, utilizando um substrato bioativo desenvolvido com a startup holandesa Respyre. A ideia é que, com o tempo, o objeto se torne um ecossistema autossustentável. Ao integrar o design computacional com a biologia, Laarman sugere que o concreto, frequentemente vilanizado por sua pegada de carbono, pode ser reinventado como um material capaz de armazenar carbono e promover a biodiversidade em ambientes urbanos.
A circularidade da madeira
Se o concreto explora a vida externa, a série 'Ply Loop' investiga a regeneração interna. Laarman desafia a percepção comum de que o compensado é um material puramente natural, apontando para a quantidade de resinas e colas tóxicas que impedem sua reciclagem. Em colaboração com a Plantics, ele utiliza uma resina biodegradável que permite que as peças sejam 'descozidas', devolvendo o material ao seu ciclo original. As formas fluidas e complexas da série, que parecem desafiar a física da madeira, são geradas por computador, mas executadas com uma precisão física que mantém o rastro do trabalho humano em cada emenda.
Arquitetura para múltiplas espécies
O horizonte de Laarman vai além das peças de galeria. Ele projeta um futuro onde fachadas de edifícios sejam desenhadas com aberturas específicas para aves, morcegos e abelhas silvestres, transformando a experiência biofílica em uma realidade funcional. A pergunta que fica é se estamos preparados para compartilhar o espaço urbano com outras formas de vida, não como convidados, mas como coabitantes. À medida que a tecnologia de fabricação avança, o design deixa de ser sobre a forma final do objeto para se tornar sobre o papel que esse objeto desempenha em ciclos biológicos maiores. O que restará quando a tecnologia e a natureza finalmente aprenderem a falar a mesma língua?
Com reportagem de Designboom
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