Juan Abarca, com sua dupla formação em medicina e direito e sua posição como presidente da MH Hospitales, traz ao público o livro “Cuando todo se tambalea” (Deusto). A obra não é apenas um relato sobre a origem e a desescalada da pandemia de Covid-19, mas uma profunda reflexão que parte da experiência pessoal, do conhecimento técnico e de um misto de medo e esperança.
A principal tese que Abarca desdobra é a inquietante constatação de que, apesar de termos plena consciência da fragilidade e imprevisibilidade da vida, tendemos a viver como se tudo estivesse sob nosso controle. Essa ilusão de permanência e segurança, segundo o autor, nos leva a negar o sobressalto e a tragédia, negligenciando o que é evidente até que as consequências se tornem dramáticas, como a pandemia demonstrou de forma contundente.
A fragilidade humana e a negação do imprevisto
A análise de Abarca sobre a pandemia revela como o afã humano em negar o inesperado e o trágico nos levou a desconsiderar sinais claros de perigo. Essa tendência, embora pareça uma obviedade em um texto escrito, manifesta-se de forma poderosa na vida real, onde a aversão à incerteza nos faz lutar até o último suspiro para evitar confrontar a própria mortalidade, mesmo que isso custe milhares de vidas. O livro, ao descer ao caso concreto da pandemia, expõe essa dinâmica de negação e suas consequências.
A obra também dedica um espaço significativo à celebração da força humana diante do desafio. Abarca destaca o papel crucial dos profissionais de saúde, que, mesmo em seus momentos de maior sobrecarga e desespero, demonstraram uma capacidade ímpar de crescimento e sacrifício para salvar vidas. O relato dessas histórias, embora não surpreendente em sua essência — pois a história da humanidade é repleta de exemplos de heroísmo —, emociona e reafirma a crença em heróis que emergem em momentos de crise, defendendo os demais. A pandemia, para Abarca, foi um desses momentos históricos que trouxeram à tona a bravura de pessoas comuns.
O papel dos profissionais de saúde e a visão de futuro
A segunda grande ideia que permeia o livro é a resiliência e a capacidade de superação do ser humano quando confrontado com adversidades extremas. Os trabalhadores do setor de saúde, em particular, são exaltados por sua atuação heroica. Abarca descreve como, mesmo diante de um cenário avassalador, esses profissionais se ergueram, demonstrando um compromisso inabalável com o bem-estar alheio. Essa narrativa de sacrifício e dedicação serve como um lembrete da capacidade humana de prevalecer, mesmo nas circunstâncias mais sombrias. O livro presta uma homenagem a esses indivíduos, cujas ações moldaram a resposta à crise sanitária.
A obra não se esquiva de abordar as complexidades técnicas do sistema de saúde. Abarca menciona conversas com figuras políticas, como Alberto Núñez Feijóo, para discutir a organização da saúde pública com um foco maior em prevenção e antecipação. Essa parte mais diagnóstica, embora possa parecer árida para alguns leitores, oferece um vislumbre sobre possíveis caminhos para um modelo sanitário mais robusto e proativo, capaz de lidar melhor com futuras crises. A inteligência artificial e a robótica também são mencionadas como fatores que adicionam uma camada de incerteza aos planos de longo prazo, dada a imprevisibilidade de seus impactos na sociedade e na produção.
Esperança em meio à incerteza
Apesar de abordar temas que geram preocupação e incerteza, como o avanço da inteligência artificial e a dificuldade de prever os próximos 5 a 10 anos, o livro de Abarca é, acima de tudo, um manifesto de esperança. Ele argumenta que, independentemente dos desafios vindouros, a força fundamental reside nas pessoas comuns, anônimas e concretas. São esses indivíduos, impulsionados por suas circunstâncias, que, ao confrontarem a mortalidade e o medo, descobrem uma força e uma fé ilimitadas. A obra sugere que a esperança reside na capacidade intrínseca do ser humano de enfrentar o desconhecido com coragem e determinação.
“Cuando todo se tambalea” convida à reflexão sobre como navegamos a incerteza e como valorizamos a vida e o sistema que nos sustenta. Abarca, com sua prosa ponderada, oferece não respostas definitivas, mas um convite à introspecção sobre nossa própria resiliência e a importância da esperança em tempos de profunda transformação e questionamento.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





