A arquiteta paisagista Julia Watson, fundadora do conceito Lo-TEK, defende que a gestão de recursos hídricos nas metrópoles globais precisa de uma mudança radical de paradigma. Em entrevista ao portal Dezeen, a especialista argumenta que a resposta para o aumento dos riscos de inundações e secas não reside exclusivamente em inovações tecnológicas de ponta, mas na reintegração de técnicas de construção milenares que foram ignoradas pela engenharia industrial.
O termo Lo-TEK, uma alusão ao conhecimento ecológico tradicional (TEK, na sigla em inglês), propõe uma abordagem regenerativa que valoriza a resiliência de sistemas ancestrais. Watson, que recentemente publicou um guia prático sobre adaptações em ambientes oceânicos e úmidos, sustenta que a infraestrutura moderna, frequentemente baseada em concreto, falha ao tentar controlar a natureza em vez de colaborar com seus ciclos naturais.
A filosofia por trás do Lo-TEK
A proposta de Watson não sugere um retorno ao passado, mas uma síntese entre o antigo e o contemporâneo. Ao estudar técnicas como os diques de peixes nas Filipinas ou os sistemas de armazenamento de gelo na Pérsia, a arquiteta identifica padrões de design que priorizam a longevidade e a integração ecológica. O argumento central é que o foco excessivo em soluções de alta tecnologia deixa de lado milênios de aprendizado sobre como habitar ecossistemas complexos.
Essa visão busca refutar a ideia de que o progresso é linear e puramente tecnológico. Ao integrar o conhecimento indígena, a infraestrutura pode se tornar mais flexível e menos dependente de manutenção artificial. Watson trabalha atualmente com grandes empresas de engenharia, como Buro Happold e Gensler, buscando aplicar esses princípios em projetos urbanos de larga escala, demonstrando que o design centrado na natureza é economicamente viável e tecnicamente robusto.
Mecanismos de adaptação urbana
O mecanismo operacional do Lo-TEK baseia-se na ressignificação da relação entre infraestrutura e ambiente. Enquanto a engenharia convencional frequentemente trata a água como uma ameaça existencial a ser contida, comunidades tradicionais a percebem de forma relacional. Essa mudança de perspectiva permite que arquitetos e urbanistas desenhem cidades que funcionam como 'esponjas', capazes de absorver e distribuir a água de forma natural, reduzindo a pressão sobre sistemas de escoamento rígidos.
Exemplos contemporâneos, como a revitalização de canais históricos em Barcelona ou sistemas de aquecimento passivo inspirados em técnicas indígenas canadenses, ilustram a eficácia dessa abordagem. A ideia é que a tecnologia moderna — como sensores de monitoramento ou novos materiais — atue como um complemento aos sistemas passivos, e não como sua substituição, criando um modelo híbrido de resiliência climática.
Implicações para o ecossistema global
A adoção dessas práticas tem implicações diretas para o planejamento urbano brasileiro, país que enfrenta desafios constantes com inundações em grandes centros. A transição para modelos de 'cidades-esponja', como os desenvolvidos pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, exemplifica como o desmonte de estruturas de concreto pode restaurar a capacidade de absorção do solo. Para reguladores e gestores públicos, o desafio reside em adaptar normas técnicas que, historicamente, favorecem soluções de engenharia pesada em detrimento de soluções baseadas na natureza.
Competidores no setor de construção civil que ignorarem a necessidade de resiliência climática correm o risco de obsolescência rápida. A pressão por infraestruturas circulares e de baixo impacto ambiental, impulsionada por metas globais de sustentabilidade, cria uma janela de oportunidade para a implementação de modelos Lo-TEK. A colaboração entre o setor público e empresas de consultoria urbanística será fundamental para escalar essas soluções, transformando a teoria em políticas públicas de longo prazo.
Perspectivas e incertezas futuras
O grande desafio que permanece é a escala. Embora existam projetos pontuais de sucesso, a transição para uma infraestrutura urbana baseada em princípios ancestrais exige uma mudança cultural profunda em como concebemos o desenvolvimento. A incerteza reside na capacidade das metrópoles de abandonar modelos de planejamento estabelecidos nas últimas décadas em favor de redes integradas e holísticas.
O que se deve observar nos próximos anos é a eficácia da integração entre essas tecnologias tradicionais e os sistemas de IA que gerenciam o fluxo urbano. A questão central não é se a tecnologia deve ser mantida, mas como ela pode ser direcionada para sustentar, em vez de substituir, os processos naturais que garantem a habitabilidade das cidades.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





