A busca por uma vida dedicada à escrita é, para muitos, um caminho pavimentado por incertezas e desincentivos. A autora Jung Yun, em um ensaio recente adaptado da antologia 'All the World Can Hold', compartilha uma jornada pessoal que ilustra essa dicotomia. Criada em um lar de imigrantes sul-coreanos nos Estados Unidos, a autora foi imersa desde cedo nos valores de segurança e estabilidade, personificados pela figura de sua tia, que possuía um emprego governamental "estável", com bons benefícios e segurança no emprego. Para seus pais, que enfrentaram dificuldades e a instabilidade do empreendedorismo, a América representava a oportunidade de construir uma vida livre de riscos, onde o trabalho árduo e a inteligência eram as chaves para o sucesso.
Essa mentalidade de "ser esperto" e evitar riscos moldou a primeira parte da carreira de Yun. Após a faculdade, ela seguiu o exemplo da tia, buscando um emprego no governo e construindo uma vida que seus pais orgulhosamente chamavam de "muito esperta". Com um diploma de pós-graduação, um apartamento em Nova York e um emprego bem remunerado em uma instituição cultural, ela se sentia protegida por seguros e investimentos, longe da precariedade que marcou a vida de seus pais. No entanto, essa segurança veio com um custo alto: longas jornadas de trabalho, sacrifício de tempo pessoal e o distanciamento de amigos. A pressão para ser "mais esperta e trabalhar mais duro" do que os outros, um eco constante de sua criação, a impelia a dedicar-se inteiramente à carreira, mesmo quando isso significava negligenciar outras áreas de sua vida.
O Chamado da Escrita
Em meio à rotina exaustiva, um curso de escrita criativa surgiu como um refúgio inesperado. O que começou como um impulso momentâneo rapidamente se transformou em uma paixão avassaladora. A dinâmica geradora da escrita, onde cada palavra escrita parecia alimentar o desejo de escrever mais, contrastava fortemente com a natureza repetitiva e muitas vezes desmotivadora de seu trabalho diário. Yun começou a vislumbrar um futuro onde a escrita não seria uma atividade marginal, mas o centro de sua existência. Contudo, o conselho parental de "ser esperto" e a aversão ao risco que lhe foram incutidos criavam um conflito interno significativo. A ideia de abandonar a estabilidade por uma carreira literária, vista como inerentemente arriscada e incerta, parecia uma afronta aos valores que sustentavam sua segurança.
A Incerteza da Publicação
A decisão de trocar a segurança por uma vida dedicada à escrita foi um divisor de águas. A reação de colegas e a própria hesitação de Yun evidenciam a percepção social de que tal escolha é, no mínimo, pouco convencional. A transição para a vida acadêmica em escrita criativa, com a venda do apartamento e a mudança para outra cidade, foi marcada por uma sensação de risco iminente. Anos depois, ao publicar seus romances, Yun se deparou com a volatilidade do mercado editorial. A declaração do então CEO da Penguin/Random House, Markus Dohle, de que "tudo é aleatório na publicação", ressoou profundamente. A ideia de que o esforço e o talento nem sempre se traduzem em sucesso, e que a sorte desempenha um papel crucial, era contrária à sua educação baseada na meritocracia e no controle. A publicação em momentos de crise global, como o 11 de setembro ou o início da pandemia de COVID-19, e os relatos de manuscritos promissores que se perdem no sistema editorial, reforçam a noção de que o controle do autor sobre o destino de sua obra é limitado.
Implicações para Escritores e o Ecossistema Literário
Essa "aleatoriedade" no mercado editorial, como apontada por Dohle, cria um cenário complexo para escritores, independentemente de seu nível de sucesso. Perder um editor devido a reestruturações, ver um livro "subperformar" sem explicação aparente ou testemunhar o esforço monumental de promoção não gerar o impacto esperado são realidades que desafiam a noção de que apenas a inteligência ou o trabalho árduo garantem o sucesso. Para Yun, essa incerteza é um "pesadelo" para sua personalidade de "primeira geração, tipo A, levemente obsessivo-compulsiva". No entanto, ela reconhece que essa mesma natureza, forjada pela necessidade de adaptação e resiliência de seus pais, a preparou para os desafios da vida de escritora. A capacidade de recomeçar, de enfrentar o medo e de persistir diante da adversidade, qualidades essenciais para seus pais em sua jornada migratória, tornam-se ferramentas valiosas para quem escolhe a carreira literária.
Reflexões e Recompensas
Mais de vinte anos após abraçar a vida de escritora, Yun continua a escrever, não porque os riscos tenham diminuído, mas porque as recompensas superam os desafios. A satisfação de contar uma história única, de resolver um problema estrutural complexo em sua narrativa ou de alcançar uma clareza através do próprio ato de escrever são recompensas intrínsecas que validam o esforço. Em seu ensaio, ela reflete sobre como a escrita que aborda as complexidades do pós-11 de setembro exigiu a superação de medos e a persistência para integrar experiências pessoais em um contexto trágico. A memória de sua vida anterior em Nova York, mesmo que de forma inconsciente, a impulsionou a continuar o trabalho. Yun conclui que, de certa forma, os valores de seus pais – a coragem de deixar sua terra natal, a audácia de cruzar um oceano e a crença na possibilidade de uma vida melhor, mesmo a um custo elevado – foram, em última instância, o que a preparou para a vida de escritora, uma jornada que, para ela, é "possivelmente uma vida que vale o risco".
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub



