O ciclo de crédito brasileiro enfrenta um momento de inflexão, marcado pela persistência de juros elevados que comprometem a capacidade de pagamento de famílias e empresas. Segundo debate realizado no programa AfterMarket, do Stock Pickers, a combinação entre taxas de juros mais altas por um período prolongado e o endividamento estruturado das famílias cria um ambiente de fragilidade, onde qualquer oscilação negativa no mercado de trabalho pode resultar em uma onda relevante de inadimplência.

O alerta ganha tração em um cenário macroeconômico global incerto, onde as pressões inflacionárias nos Estados Unidos e a volatilidade dos juros longos americanos restringem o espaço de manobra do Banco Central brasileiro. A tese central entre gestores como Bruno Serra, da Itaú Asset, Andrew Reider, da WHG, e Christian Keleti, da Alpha Key, é que o sistema financeiro, embora capitalizado, está diante de um teste de resiliência que vai além da solvência bancária, atingindo diretamente a dinâmica de consumo e investimento no país.

A fragilidade do crédito doméstico

O mercado de crédito brasileiro viveu, nos últimos anos, uma expansão extraordinária impulsionada pela digitalização via Pix, pela formalização do mercado de trabalho e pela intensa concorrência entre bancos tradicionais e fintechs. Esse crescimento, que sustentou o consumo das famílias, assemelha-se a uma bicicleta que, para manter o equilíbrio, precisa estar em constante movimento. A preocupação dos especialistas reside no fato de que, ao cessar esse ímpeto, a estrutura de dívidas acumuladas torna-se insustentável sob o peso de juros que, segundo as projeções atuais, devem permanecer na casa dos 13% ao ano.

Essa mudança de patamar nas expectativas de juros altera o cálculo de risco de toda a cadeia econômica. Empresas que haviam planejado expansões ou alavancagens baseadas em cenários de juros decrescentes agora enfrentam o desafio do refinanciamento de dívidas em condições significativamente mais onerosas. O impacto, portanto, não é apenas de curto prazo, mas de readequação de balanços que podem restringir a oferta de capital para novos projetos de investimento.

O dilema da produtividade e da inflação

Um dos pontos centrais da análise é o papel da tecnologia na produtividade e seu reflexo na inflação. A interrogação sobre se a inteligência artificial será, de fato, um elemento deflacionário ao otimizar a mão de obra é um componente de incerteza para os gestores. Se a IA conseguir reduzir custos operacionais sem pressionar salários, o cenário para a inflação de serviços pode se tornar mais benigno. Contudo, essa convicção ainda é incipiente, e a inflação de serviços permanece como uma variável difícil de explicar, mesmo com o mercado de trabalho americano apresentando sinais de acomodação.

O mecanismo em jogo é a transmissão dessa incerteza global para os ativos emergentes. A política monetária do Federal Reserve, sob o comando de um sucessor ainda indefinido, dita o ritmo dos juros longos globais. Se a nova gestão americana optar por um combate mais rigoroso à inflação, o custo de capital para países como o Brasil tende a subir, agravando o cenário de inadimplência interna ao encarecer o crédito e reduzir a liquidez disponível para rolar dívidas internas.

O risco do comportamento oportunista

Além das variáveis econômicas, existe uma dimensão política que preocupa o mercado: o efeito de sinalização de programas de renegociação de dívidas. Medidas como o Desenrola e incentivos setoriais, embora busquem aliviar o estoque de dívidas, podem gerar um incentivo perverso. Devedores, ao anteciparem novas rodadas de perdão ou condições facilitadas, podem optar por postergar pagamentos, criando um comportamento de inadimplência estratégica que eleva o custo do crédito para o restante do mercado.

Para os stakeholders, o desafio é equilibrar a necessidade de alívio social com a manutenção da disciplina fiscal e de crédito. Reguladores e instituições financeiras precisam navegar entre o suporte necessário à economia e o risco de moral hazard, onde a expectativa de intervenção estatal distorce a precificação de riscos. A conexão com o mercado brasileiro é direta, pois o custo do crédito tende a ser precificado com base nessas incertezas, encarecendo o acesso a recursos para todos os agentes.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a profundidade dessa eventual onda de inadimplência e a capacidade de reação dos agentes econômicos. A resiliência do mercado de trabalho brasileiro será o principal termômetro para medir o impacto real dos juros sobre a solvência das famílias. Observar a evolução dos indicadores de emprego e o comportamento dos bancos frente ao refinanciamento de dívidas corporativas será crucial nos próximos trimestres.

O cenário exige cautela, não apenas pela magnitude das taxas, mas pela velocidade com que o ambiente de crédito pode se deteriorar caso as variáveis externas continuem pressionando o câmbio e a curva de juros doméstica. A transição entre um ciclo de expansão e um de contração exige monitoramento constante sobre a qualidade dos ativos mantidos pelas instituições financeiras e o apetite ao risco dos tomadores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney — Onde Investir