Michio Kaku é um comunicador de primeira linha e um físico de credenciais reais — mas a distância entre essas duas funções raramente fica tão exposta quanto quando ele afirma que computadores quânticos poderiam "finalmente resolver a equação inacabada de Einstein". A afirmação é sedutora. É também, no estado atual da ciência, prematura ao ponto de ser enganosa. O que a entrevista revela, mais do que qualquer avanço técnico, é a tensão estrutural entre a física como prática de pesquisa e a física como produto de mídia.

O que a computação quântica pode — e o que ainda não pode

Kaku, que ocupa a cadeira Henry Semat de física teórica no City College de Nova York (CUNY) e é cofundador da teoria de campos de strings, tem razão em pontos concretos. A Lei de Moore está de fato se aproximando de limites físicos: transistores já operam na escala de 2 a 3 nanômetros, próximos do regime onde efeitos quânticos tornam o comportamento dos elétrons imprevisível para a lógica clássica. Nesse contexto, a computação quântica não é especulação — é uma resposta de engenharia a uma barreira real.

As aplicações que Kaku menciona — síntese de fertilizantes via simulação molecular, avanços em fusão nuclear, descoberta de fármacos — são áreas onde computadores quânticos têm vantagem teórica demonstrável. A simulação da molécula de nitrogenase, enzima central na fixação de nitrogênio, exige um espaço de estados que cresce exponencialmente para computadores clássicos e é tratável para sistemas quânticos com qubits suficientes e baixo nível de erro. Google e IBM publicaram resultados parciais nessa direção entre 2019 e 2023.

O problema está na escala de tempo e na arquitetura atual. Os sistemas disponíveis hoje — incluindo o Sycamore do Google, que em 2019 realizou uma tarefa específica em 200 segundos contra estimados 10.000 anos de um supercomputador clássico — operam com qubits ruidosos (NISQ, Noisy Intermediate-Scale Quantum). Estão longe de rodar os algoritmos de Shor ou Grover em escala útil para criptografia ou simulação molecular complexa.

String Theory como atalho narrativo

A conexão que Kaku traça entre computação quântica e a teoria das cordas como "teoria de tudo" é onde o argumento perde densidade. A teoria das cordas — da qual Kaku é um dos arquitetos, tendo desenvolvido a formulação de campos de strings nos anos 1970 e 1980 — permanece sem uma única predição experimental verificada após mais de cinco décadas. Não é que a teoria esteja errada; é que ainda não é falsificável nos termos da física experimental contemporânea.

Afirmar que computadores quânticos poderiam "resolver" a equação unificada de Einstein implica que o problema é computacional. Não é — ou pelo menos não primariamente. O obstáculo central entre a relatividade geral e a mecânica quântica é conceitual e matemático: as duas teorias usam estruturas incompatíveis de espaço-tempo. Nenhum aumento de poder computacional resolve uma incompatibilidade de fundamentos. Comparativamente, é como dizer que processadores mais rápidos teriam resolvido a crise dos fundamentos da matemática que levou Gödel a formular seus teoremas de incompletude em 1931.

A menção a Alan Turing na entrevista é reveladora. Turing construiu a base teórica da computação moderna sem um único computador funcional à disposição — o problema era de lógica, não de hardware. A unificação da física pode exigir o mesmo tipo de ruptura conceitual, não mais capacidade de processamento.

O que fica desta entrevista é menos um roteiro para a física do século XXI e mais um diagnóstico do mercado de ideias científicas: Kaku é genuinamente influente, genuinamente inteligente, e genuinamente incentivado a comprimir décadas de incerteza em promessas de uma hora. O risco não é que ele esteja errado — é que a audiência não saiba distinguir o que é consenso, o que é hipótese e o que é esperança.

Fonte · The Frontier | Science