A notificação chega no meio do trânsito de São Paulo. Não é um novo pedido, mas um aviso: sua velocidade está abaixo do padrão. Para o entregador da Keeta, a mensagem é clara: acelere. A pressão não vem de um gerente, mas de um código, um algoritmo que mede, compara e cobra eficiência em tempo real, transformando a relação de trabalho em uma constante avaliação de performance.

Essa dinâmica de gestão algorítmica levou a Keeta, plataforma da gigante chinesa Meituan, a ser alvo de uma denúncia no Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT). A representação, protocolada por um porta-voz da categoria, alega que o sistema aumenta os riscos para os motociclistas ao incentivar a velocidade, sem necessariamente ponderar as condições adversas da rua, como chuva, trânsito ou semáforos.

O fantasma da máquina chinesa

A chegada da Keeta ao Brasil, em operação desde o fim de 2023, trouxe um modelo de negócios afiado na China, onde sua controladora, Meituan, é uma das maiores do setor. A estratégia inclui a política de 'Horário Garantido', que promete compensação ao cliente por atrasos. O que parece um benefício para o consumidor se traduz, na ponta, em uma equação de pressão para o entregador. A denúncia ao MPT questiona exatamente este ponto: a tecnologia é usada para otimizar rotas e segurança, como afirma a empresa, ou para externalizar o custo do tempo para o elo mais frágil da cadeia?

O debate não é novo e ecoa as críticas enfrentadas pela Meituan em seu mercado de origem. Relatos sobre a intensidade da rotina dos trabalhadores chineses, com jornadas de até 12 horas e uma busca incessante por metas, são citados no documento entregue ao MPT. A cobrança por eficiência, mediada por um software, cria um ambiente onde a segurança pode se tornar secundária à performance.

A justiça do código

Ao levar o caso à Justiça do Trabalho, os entregadores não questionam apenas uma empresa, mas um modelo de gestão. O que está em jogo é a própria definição de autonomia na 'gig economy'. Se um algoritmo pode ditar o ritmo, enviar alertas de desempenho e, potencialmente, influenciar a distribuição de corridas, onde termina a ferramenta de otimização e começa a subordinação? A denúncia pede uma análise independente do algoritmo, uma espécie de auditoria sobre o 'chefe-código', para entender seus critérios e vieses.

O MPT de São Paulo já possuía uma apuração sobre a velocidade de entregadores, preocupado com o aumento de acidentes na capital. A denúncia contra a Keeta adiciona uma camada de complexidade: a da gestão automatizada da pressão. A empresa defende sua tecnologia como um meio para organizar rotas e ampliar ganhos, mas a linha entre otimização e exploração é o que será escrutinado.

Enquanto a disputa de narrativas se desenrola entre a eficiência da plataforma e a segurança do trabalhador, uma pergunta permanece no ar, tão presente quanto o som das motos no corredor: quando o cronômetro é digital e a rua é real, quem define o que é uma velocidade justa?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital