Kiah Celeste, artista nova-iorquina em ascensão, consolidou sua prática escultural ao transformar materiais descartados em objetos de refinamento estético. Atualmente em exposição no Studio Museum, seu trabalho desafia a distinção entre o familiar e o transcendente, utilizando itens como cúpulas de claraboias e bolas de boliche para compor peças que parecem desafiar a gravidade. A trajetória da artista, que abandonou a fotografia técnica após a faculdade, encontrou seu norte durante um período de trabalho como manipuladora de arte, especialmente em sua passagem pelo Louvre Abu Dhabi.

A gênese do objeto encontrado

A transição de Celeste da fotografia para a escultura foi marcada por uma rejeição deliberada das regras rígidas da técnica fotográfica em favor de uma abordagem tátil e improvisada. Em Abu Dhabi, a necessidade de produzir uma exposição com recursos limitados forçou a artista a coletar resíduos urbanos, resultando em obras como o 'Balance Bath' (2019). Essa prática de "forrageamento" tornou-se a base de seu método criativo, onde o material usado não é apenas uma escolha econômica, mas uma decisão ética e estética que confere história e caráter a cada peça produzida.

A mecânica da tensão visual

O trabalho de Celeste opera em um constante equilíbrio entre o minimalismo e a acessibilidade do objeto pronto, ou 'readymade'. A artista evita intervenções excessivas, permitindo que a forma original do objeto dialogue com a nova composição. Em peças como 'Ouroboros' (2025), feita de CDs antigos, ou a série 'Dream of Pearl' (2023), ela manipula a percepção do espectador ao tornar elementos pesados, como bolas de boliche, visualmente leves e suspensos. A tensão física é um componente central, visível em obras que literalizam conceitos geométricos sob pressão.

Diálogos e autorretratos simbólicos

A artista frequentemente explora dualidades em suas exposições, participando de mostras em dupla que ampliam o contraste entre diferentes sensibilidades artísticas. Celeste descreve suas esculturas como autorretratos simbólicos que refletem sua própria experiência de vida, marcada pela interseção de identidades diversas. Essa natureza multifacetada, que ela descreve como um mundo interior "tumultuoso", é canalizada para as obras, onde dissonâncias são harmonizadas por meio de uma curadoria cuidadosa de materiais.

Perspectivas e o futuro da matéria

O futuro da obra de Celeste permanece aberto, mas a consistência de sua ética de trabalho sugere uma exploração contínua da resiliência dos materiais. Ao evitar o uso de itens novos, ela reafirma um compromisso ambiental que ressoa com as preocupações contemporâneas sobre o excesso de resíduos, sem cair em um discurso puramente utilitário. O que resta observar é como sua capacidade de encontrar beleza no refugo continuará a moldar sua linguagem escultural em escalas maiores e mais complexas.

A elegância de Celeste reside justamente nessa capacidade de reconciliar o que é descartável com uma sofisticação formal que convida o público a reavaliar o que consideramos lixo e o que definimos como arte, mantendo sempre o olhar atento ao potencial de transformação contido nos objetos que nos cercam.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews