O especialista Francisco Kovacs, renomado internacionalmente por seus estudos sobre dores de coluna, lança um alerta contundente: cerca de 30% de todo o gasto em saúde é direcionado a procedimentos e tratamentos que se mostram inúteis ou até mesmo prejudiciais aos pacientes. Essa ineficiência, segundo Kovacs, compromete a sustentabilidade dos sistemas de saúde, que deveriam priorizar o uso eficiente dos recursos existentes antes de buscar mais investimentos. A afirmação, feita em entrevista à Forbes Health, destaca um problema crônico no manejo de condições como a dor lombar, que afeta milhões de pessoas globalmente e representa um custo assistencial e social expressivo.
Kovacs, que lidera a Unidade da Espalda Kovacs no Hospital HLA Universitario Moncloa, destaca um problema que encontra eco no Brasil: a falta de coleta sistemática de dados impede uma avaliação precisa sobre como a dor de coluna é abordada. Embora existam recomendações e guias de prática clínica baseados em evidências científicas, o cumprimento dessas diretrizes nem sempre é a realidade local. Fatores como desconhecimento, resistência à mudança ou a influência de interesses econômicos de terceiros podem levar à prescrição de tratamentos que não agregam valor ao paciente nem ao sistema de saúde. O médico ressalta que, em ambientes de alta demanda, a falta de tempo para uma anamnese e exame físico completos pode comprometer a decisão clínica, enquanto pacientes com maior poder aquisitivo podem ser submetidos a procedimentos caros e desnecessários, apenas por serem novidade ou por poderem pagá-los, mesmo sem comprovação de eficácia ou segurança.
Inercias e Modas no Tratamento da Coluna
O especialista critica a prevalência de "modas" e "inercias" na prática clínica que levam ao abuso de procedimentos diagnósticos e terapêuticos. Um exemplo claro é o uso excessivo de ressonâncias magnéticas para dor lombar. Estudos indicam que entre 18% e 80% dessas ressonâncias na Espanha não deveriam ter sido prescritas. A realização de um exame sem indicação clara não é isenta de riscos: aumenta em até 800% a probabilidade de o paciente ser submetido a uma cirurgia desnecessária. Isso ocorre porque achados radiológicos, mesmo que irrelevantes para o quadro clínico do paciente, podem ser interpretados erroneamente como a causa dos sintomas, levando à "cirurgia de imagens" em vez de "cirurgia de pacientes". Essa abordagem gera custos econômicos elevados e, mais grave, expõe o paciente a riscos clínicos significativos. O mesmo se aplica a radiografias, que, para a maioria dos casos de dor de coluna, são inúteis e submetem o paciente a uma dose de radiação considerável.
As intervenções cirúrgicas também são alvo de questionamento. Pesquisas recentes identificaram os casos específicos em que a cirurgia de coluna realmente beneficia o paciente, mas essa proporção é mínima, estimada em cerca de 1% dos casos que chegam à atenção primária. Apesar disso, incentivos econômicos podem levar à realização de cirurgias em casos inapropriados, gerando gastos injustificados e expondo os pacientes a riscos de sequelas permanentes sem benefícios clínicos. Kovacs reitera que o problema se estende a outros tratamentos, com uma estimativa geral de que 30% dos gastos sanitários sejam com procedimentos inúteis ou contraproducentes, mas que geram faturamento adicional.
Custos e Impactos do Sobretratamento
Embora o Brasil não colete dados específicos para quantificar o custo do mau tratamento da dor de coluna, estudos internacionais revelam a magnitude do problema. A dor lombar é a principal causa de incapacidade no mundo, com custos assistenciais comparáveis aos do câncer. Globalmente, o custo anual do tratamento inadequado da dor de coluna em países europeus varia entre 1,2% e 1,7% do PIB. Desse montante, apenas uma pequena fração (7-10%) é de custo assistencial direto; a maior parte refere-se a gastos indiretos, sociais e trabalhistas, como absenteísmo e perda de produtividade.
Reverter esse quadro de desperdício exige uma mudança cultural e estrutural nos sistemas de saúde. Kovacs enfatiza a necessidade de os pesquisadores produzirem conhecimento científico claro e aplicável, e de existirem mecanismos de formação médica continuada confiáveis, livres da interferência da indústria. Além disso, é crucial facilitar a incorporação de inovações na prática clínica rotineira, com sistemas e incentivos adequados para modificar comportamentos estabelecidos. A avaliação contínua dos resultados e a otimização dos processos são essenciais. A liderança intelectual e ética das autoridades sanitárias é fundamental para inspirar profissionais e gestores a reverter um quadro de deterioração, um desafio que se aplica tanto ao cenário global quanto ao brasileiro.
Prevenção Simples e Futuro da Coluna
Medidas preventivas simples, como manter-se ativo e evitar o repouso prolongado em caso de dor, são frequentemente subvalorizadas. Kovacs defende que essas práticas, acessíveis a qualquer pessoa, reduzem o risco de episódios de dor e aceleram a recuperação. A inatividade física, especialmente entre os jovens, é um fator preocupante globalmente. No Brasil, por exemplo, a substituição de atividades físicas por entretenimento digital entre adolescentes é um fenômeno observado que agrava o risco. Essa falta de atividade física compromete não apenas o desenvolvimento muscular e estrutural, mas também a saúde da coluna vertebral a longo prazo. A tendência de aumento da dor de coluna nos próximos anos parece provável se essa realidade não for revertida.
Para construir um sistema de saúde eficiente, que ofereça bons resultados a baixo custo, é preciso despolitizar a gestão, garantir que as decisões priorizem o interesse do paciente e sejam baseadas em evidências científicas. A cultura de avaliação de resultados clínicos precisa ser implantada. Tecnologias sanitárias só são eficazes e eficientes quando aplicadas corretamente. A tendência atual de focar no desenvolvimento e venda de novos produtos, em vez de avaliar rigorosamente sua eficácia e otimizar seu uso, é prejudicial tanto para o erário quanto para os pacientes. A pesquisa deve se concentrar em refinar indicações e otimizar o uso de tecnologias, e não apenas em lançar novidades que podem ser ineficazes ou indicadas para poucos casos. A prioridade deve ser sempre a saúde do paciente e a eficiência do sistema.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





