O ar rarefeito do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, abriga atualmente uma reunião ímpar de talentos: "Krasner and Pollock: Past Continuous". A exposição, que se estende até janeiro, não é apenas uma mostra de mais de 120 obras, mas um convite a revisitar a história da arte americana através dos olhos de um dos casais mais icônicos e, por vezes, mal compreendidos do século XX: Lee Krasner (1908–84) e Jackson Pollock (1912–56). Por décadas, o foco quase exclusivo recaiu sobre Pollock, o rebelde do expressionismo abstrato, cuja vida e obra foram envoltas em um halo de genialidade atormentada. Sua ascensão meteórica, culminando em um leilão que o inseriu no clube dos US$ 100 milhões, e biografias monumentais, como a de Steven Naifeh e Gregory White, solidificaram sua imagem como o artista americano por excelência. A própria Krasner, por muito tempo, foi vista como a figura de apoio, a esposa resiliente que suportou os turbulentos altos e baixos de um gênio. Uma exposição seminal de Barbara Rose em 1981 tentou subverter essa narrativa, propondo uma "Relação de Trabalho", mas a sombra de Pollock provou ser longa e densa.
Uma Nova Perspectiva
A mostra "Past Continuous" se propõe a ser mais ousada, mais matizada e, acima de tudo, mais justa. Ao dar a Krasner um protagonismo sem precedentes – ela, que viveu 28 anos a mais que o marido e teve uma carreira prolífica e independente –, a exposição nos força a confrontar a história sob uma nova luz. A jornada começa com imagens evocativas de sua casa e estúdio em Long Island, um refúgio longe do burburinho de Nova York, onde Pollock forjou sua técnica de drip painting, inspirada, surpreendentemente, pela obra de Janet Sobel. A capa da revista LIFE em 1947, que o alçou à fama com a pergunta "Jackson Pollock: É ele o maior pintor vivo dos Estados Unidos?", o retratou como um ícone solitário, um arquétipo do gênio masculino, sem menção a Krasner. A exposição do Met, contudo, ambiciosamente reseta essa narrativa, revelando a complexidade da relação artística e pessoal do casal.
A Ascensão de Krasner
A primeira galeria da exposição já sinaliza essa mudança de rumo, apresentando as colagens vibrantes de Krasner dos anos 1950, um período em que Pollock enfrentava seus próprios impasses criativos e espirais autodestrutivas. "Bald Eagle" (1955) é um exemplo potente, onde Krasner incorpora fragmentos de tecidos descartados por ela e Pollock, incluindo uma linha de tinta pingada pelo marido. É uma metamorfose artística, uma renascença das cinzas, que reflete a própria trajetória de Krasner. Ela, que enfrentou dúvidas e bloqueios criativos, sempre buscou caminhos próprios, mantendo sua integridade artística sob a imponente presença de Pollock. As palavras de Arthur Rimbaud, que ela uma vez escreveu em sua parede: "A quem devo me alugar? Que besta devo adorar?", ecoam a luta constante pela autonomia criativa.
Parceria e Independência
Ao apresentar obras anteriores ao encontro do casal, como autorretratos de ambos em diferentes estilos e materiais, a exposição sublinha suas identidades artísticas preexistentes. A mostra também destaca a inclusão de ambos em exposições importantes, como "American and French Painting" (1942), onde Krasner, ao ver a obra de Pollock, o procurou. A exposição celebra momentos cruciais, como a aclamada exposição de Krasner na Stable Gallery em 1955, que lhe rendeu o reconhecimento de "uma adição importante à cena artística americana". Contudo, mesmo com elogios, um certo viés hierárquico persistia, com críticos como Clement Greenberg, que aclamou Pollock por superar o cubismo, oferecendo a Krasner um reconhecimento mais contido em relação à sua inovação na colagem. A verticalidade e a força em obras como "Blue Level" e "Desert Moon" (ambas de 1955) parecem expressar essa aspiração por um reconhecimento pleno.
Legado em Evolução
Nas salas finais, Krasner assume o protagonismo. "The Seasons" (1957), uma obra monumental que celebra a vida após a morte de Pollock, é um testemunho de sua ousadia e exploração contínua. Sua arte, desde as colagens com desenhos de carvão até a pintura "Kufic" (1965), inspirada na caligrafia árabe, demonstra um interesse constante pela linha e pela escrita, uma busca por novas formas de expressão. "Rising Green" (1971) e "Future Indicative" (1977) são marcos de uma carreira que se recusou a estagnar. Krasner, autocrítica e insatisfeita, produziu obras-primas que dialogam com seu tempo, mas que permanecem únicas, distantes de seus contemporâneos. A exposição "Past Continuous" finalmente a consagra, não como a musa ou a sombra de um gênio, mas como uma força criativa por si só, uma contribuinte essencial e poderosa para a tapeçaria da arte americana. Fica a pergunta: quantas outras histórias de artistas foram ofuscadas pela fama de seus companheiros, e quando teremos a chance de reescrevê-las com a mesma justiça e profundidade?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





