A La Costeña, uma das marcas de alimentos mais onipresentes no México, representa um tipo de construção de valor cada vez mais raro: um império industrial familiar, erguido ao longo de um século. Com vendas anuais que se aproximam dos 19 bilhões de pesos mexicanos e cerca de 4.500 funcionários, a companhia teve seu início em 1923, numa modesta mercearia no bairro de Tlatelolco, na Cidade do México. A recente notícia do falecimento de Vicente López Rodea, presidente do conselho e filho do fundador, marca o fim de um capítulo para a dinastia.
A trajetória da empresa é um estudo de caso sobre estratégia industrial de longo prazo, distante do ciclo de capital de risco e das saídas rápidas. A leitura aqui é que o crescimento da La Costeña não se deu por um único golpe de gênio, mas por uma execução metódica e paciente em três frentes: integração vertical, modernização tecnológica e diversificação via aquisições. É uma fórmula clássica de construção de conglomerados, com paralelos em diversas economias, inclusive a brasileira.
A estratégia do pote de vidro
Tudo começou com uma necessidade fundamental: a conservação de alimentos. O fundador, Vicente López Resines, percebeu uma oportunidade ao envasar pimentas em vinagre para estender sua vida útil. O que era uma solução artesanal para sua pequena loja, batizada de “La Costeña”, rapidamente ganhou tração. A demanda crescente levou a um passo decisivo em 1937: a abertura da primeira fábrica, já com uma linha de produção capaz de gerar centenas de latas por dia.
O movimento seguinte, na década de 1940, talvez seja o mais revelador sobre a mentalidade da gestão: a empresa passou a fabricar suas próprias latas. Essa aposta na integração vertical, controlando uma parte crucial da cadeia de suprimentos, permitiu à La Costeña escalar a produção e garantir a qualidade de suas embalagens. Foi uma decisão que priorizou a resiliência e o controle sobre a agilidade de terceirizar, pavimentando o caminho para a produção em massa que viria nas décadas seguintes.
A expansão silenciosa
Com a base industrial estabelecida, a La Costeña focou em escala e eficiência. A companhia expandiu sua capacidade produtiva com novas plantas em locais estratégicos do México, como Sinaloa e San Luis Potosí, e investiu pesadamente na automação de seus centros de distribuição a partir dos anos 2000. Ao mesmo tempo, adotou inovações de embalagem, como as latas “abre fácil” e sistemas de envase asséptico, mantendo o produto relevante nas gôndolas.
O terceiro pilar foi a diversificação. A empresa expandiu seu portfólio para além das conservas, incluindo feijões, molhos e outros pratos prontos. Mais importante, usou seu balanço para consolidar o mercado, adquirindo marcas como Doña Chonita, Rancherita, os salgadinhos Totis e os amendoins Nipón. Essa estratégia de M&A transformou a La Costeña de uma empresa de um único produto em um grupo diversificado de bens de consumo, fortalecendo sua posição na indústria de alimentos.
O falecimento de Vicente López Rodea, uma figura central da segunda geração, ocorre em um momento de solidez operacional. O desafio para a companhia, agora em seu segundo século, será dar continuidade a um legado de crescimento deliberado, conciliando a tradição familiar com as novas dinâmicas de um mercado cada vez mais competitivo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





