A Île Seguin, em Boulogne-Billancourt, nos subúrbios de Paris, ganhou um novo fôlego com a inauguração do Le Large, um centro de arte contemporânea que ocupa um espaço antes dedicado à produção industrial da Renault. A chegada do museu, parte de um complexo cultural maior chamado Pointe des Arts, marca uma nova fase na revitalização de uma ilha historicamente ligada à fabricação de automóveis.

O Le Large, projetado pelo escritório RCR Arquitectes, destaca-se por sua arquitetura com uma fachada de alumínio anodizado cor de cobre, cujos elementos em forma de diamante remetem ao nome da instituição. "Prendre le large", em francês, significa "zarpar para o mar", uma expressão que, segundo a diretora Paula Aisemberg, evoca a localização da ilha, a possibilidade de fuga, partida e descoberta. Com um orçamento anual estimado em €5 milhões, o espaço de 2.500 m² de área expositiva poderá abrigar exposições que ocupam todo o edifício ou diversas mostras simultaneamente.

Um Legado Industrial Transformado

A transformação da Île Seguin de um centro fabril para um polo cultural é notável. Por décadas, a fábrica da Renault empregou milhares e produziu milhões de carros. Agora, o Le Large busca recontar essa história, não como um museu de história industrial, mas como um palco para a arte contemporânea. A exposição de abertura, "Moteur Imaginaire" (Motor Imaginário), curada por Cecilia Alemani, diretora da High Line Art em Nova York e curadora da Bienal de Veneza de 2022, é a personificação dessa proposta. A mostra reúne mais de 100 obras de 55 artistas de 23 países, explorando a jornada do automóvel desde a linha de montagem até o status de objeto de desejo e, finalmente, parte do universo digital.

Alemani buscou integrar o passado industrial da ilha à narrativa artística. Cerca de 50 obras do acervo histórico da Renault, incluindo peças de artistas que participaram do programa "Art, Research and Industry" da montadora, como Jean Dubuffet e Arman, são exibidas ao lado de fotografias e materiais de arquivo. "Sentimos que era essencial reconhecer essa história", afirmou Aisemberg. O design da exposição, concebido por Pascal Rodriguez, utiliza aberturas circulares para evocar a lógica da linha de montagem, imergindo o visitante em um ambiente que remete a uma máquina ou a um túnel.

Diálogo entre Máquinas e Ideias

A curadora Cecilia Alemani descreveu a exposição como uma "linha de montagem para máquinas e para ideias". A mostra é estruturada em quatro espaços sucessivos, cada um com um carro posicionado estrategicamente. Um exemplo é o Renault de 1898, transformado em palanquim pelo artista ganês Paa Joe Junior, ou a intervenção de Arman sobre um modelo de Renault 10, que foi fragmentado e disposto em caixas de acrílico. O trabalho de Mohamed El Khatib, com um Renault 12 carregado de malas, narra as viagens de famílias imigrantes para o Magreb, enquanto Bertrand Lavier apresenta um Fórmula 1 da Renault repintado com suas pinceladas características.

"Moteur Imaginaire" também destaca a cena artística francesa, com quase metade dos artistas vivendo na França. Alemani expressou satisfação em trabalhar com nomes como Sara Sadik, Randa Maroufi e Mohamed Bourouissa, além de descobrir novos talentos. A exposição inclui 17 novas comissões, como o filme "Untitled" (2026) de Clément Cogitore, que revisita a greve da fábrica da Renault em 1947, e uma tapeçaria de Zhenya Machneva que retrata o motor do Renault Kangoo de seu avô, tecida em tear manual. Essa peça contrasta a técnica artesanal com a produção mecanizada.

Implicações e o Futuro do Espaço

O Le Large opera em um modelo híbrido, combinando uma associação sem fins lucrativos com um fundo de dotação e uma entidade comercial para aluguel de espaços. O projeto é liderado pelo colecionador Laurent Dumas, com o Emerige Endowment Fund como principal patrocinador. Essa estrutura o posiciona ao lado de outras instituições privadas fundadas por colecionadores em Paris, como a Fondation Louis Vuitton e a Bourse de Commerce, embora com um foco distinto.

Diferentemente de museus que constroem coleções permanentes, o Le Large priorizará exposições temporárias, mantendo um programa dinâmico. A abertura com uma exposição de grande escala e curadoria de renome estabelece uma ambição clara. A iniciativa busca atrair um público amplo, com cerca de 40% de seus espaços de acesso livre, incentivando a permanência e a interação. A inclusão de uma livraria, loja conceito, cafeteria e um espaço dedicado a oficinas infantis reforça a ideia do Le Large como um ponto de encontro e não apenas um local de exibição.

Perguntas em Aberto

Ainda que a exposição inaugural "Moteur Imaginaire" dialogue intensamente com o passado industrial da Île Seguin, a direção curatorial de longo prazo do Le Large permanece em construção. A decisão de focar em exposições temporárias, em vez de uma coleção própria, sugere uma flexibilidade estratégica para se adaptar às tendências da arte contemporânea e às oportunidades de colaboração.

O sucesso do Le Large dependerá de sua capacidade de sustentar o alto padrão de suas exposições e de engajar o público parisiense e internacional. A relação com a comunidade local e a forma como o museu continuará a reinterpretar o legado industrial da região serão pontos cruciais a serem observados nos próximos anos. A ambição de ser um espaço de "descoberta" e "escapada" será testada pela relevância e impacto de suas futuras programações.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews