Chegar ao topo da fila ranqueada de League of Legends é um feito que exige dedicação, conhecimento e, acima de tudo, uma execução impecável. No entanto, para Calid “Moita” Reis, coach da LOS Academy, o desempenho individual na Solo Queue, embora um indicativo de forte habilidade mecânica, é apenas o ponto de partida para uma carreira profissional.
A mecânica, que envolve o controle do personagem e a execução de jogadas individuais, é fundamental. Contudo, o ambiente competitivo demanda um conjunto de competências muito mais amplo: comunicação eficaz com a equipe, tomada de decisão estratégica, entendimento tático profundo, disciplina inabalável e uma capacidade contínua de aprendizado. É a transição dessa habilidade individual para o desempenho coletivo que define o verdadeiro potencial de um jogador profissional. Essa lacuna é preenchida por torneios de base e pelo trabalho dedicado de profissionais como coaches, que atuam nos bastidores para lapidar esses talentos.
De Jogador a Treinador: A Trajetória de Moita
A própria trajetória de Moita no cenário de League of Legends ilustra essa evolução. Iniciando como jogador, ele dedicou cerca de seis meses ao competitivo antes de descobrir uma paixão mais profunda pelo estudo estratégico do jogo. Uma oportunidade surgiu quando um amigo o convidou para ser coach de uma equipe montada nos Estados Unidos. Conciliando a faculdade com essa nova função, Moita mergulhou em uma rotina intensa, estudando o jogo noite adentro para auxiliar seus jogadores. O time prosperou, subindo de divisão, mas a dedicação extrema cobrou seu preço com um quadro de burnout no split seguinte. Essa experiência inicial moldou sua visão sobre a complexidade e as exigências da carreira de treinador.
A pandemia de Covid-19 também desempenhou um papel significativo na forma como o cenário competitivo se desenvolveu. Com as interações presenciais limitadas, atividades online, incluindo jogos e e-sports, ganharam ainda mais relevância na socialização. League of Legends, por sua natureza online, não foi fundamentalmente alterado pela pandemia, mas sua capacidade de manter o engajamento e a competição em um ambiente remoto se tornou mais evidente. Para muitos, como Moita, o cenário competitivo online se tornou um ponto central de conexão social e profissional.
Solo Queue vs. Competitivo: A Lacuna a Ser Preenchida
A Solo Queue, o ambiente onde muitos aspirantes a profissionais dão seus primeiros passos, serve como um laboratório para aprimorar a mecânica. Alcançar os ranques mais altos demonstra um domínio individual do jogo. Contudo, a dinâmica de uma partida ranqueada, onde cinco jogadores são reunidos aleatoriamente, difere radicalmente da coesão necessária em uma equipe profissional. Em um time de e-sports, os cinco jogadores precisam operar como uma unidade coesa, onde cada decisão individual é parte de um plano coletivo. O coach Moita ressalta que a capacidade de um jogador de equipe não se resume a executar jogadas espetaculares, mas sim a entender o momento certo para fazê-las, como elas impactam a estratégia geral e como coordenar ações com os companheiros.
Essa distinção sublinha que um jogador com excelente mecânica ainda tem um vasto campo de aprendizado antes de estar apto para o nível profissional. A formação de um atleta de e-sports envolve não apenas o aprimoramento técnico, mas também o desenvolvimento de habilidades interpessoais e de comunicação, aspectos que um coach busca cultivar.
O Papel do Coach e a Realidade do Desenvolvimento
A ideia de que um talento bruto pode ser instantaneamente transformado em profissional com a ajuda de um bom treinador é relativizada por Moita. Ele aponta a idade como um fator crucial no processo de desenvolvimento, especialmente ao lidar com jogadores mais jovens que ainda estão moldando sua maturidade, comportamento e habilidades de comunicação. Para Moita, a responsabilidade pela evolução recai majoritariamente sobre o próprio jogador, estimada em 75% para o atleta e 25% para o coach. O treinador pode oferecer orientação, identificar falhas, ensinar conceitos e estruturar treinos, mas a aplicação prática e a internalização desse aprendizado dependem intrinsecamente do jogador.
Além disso, a figura do coach abrange diferentes perfis. Há aqueles com forte inclinação analítica, focados em táticas e estratégias, e outros com habilidades interpessoais apuradas, essenciais para gerenciar equipes e indivíduos. O head coach, em particular, precisa equilibrar essas duas facetas. Moita destaca uma carência de experiência no cenário brasileiro no que tange à gestão de pessoas, especialmente com atletas adolescentes. Saber transmitir uma cobrança, entender as reações individuais e administrar conflitos são competências tão vitais quanto o conhecimento profundo do jogo.
Tier 3 e a Formação do Ecossistema Brasileiro
Nesse contexto, os torneios de Tier 3, que representam a base do competitivo organizado abaixo das ligas profissionais, ganham importância estratégica. Eles oferecem a primeira experiência estruturada de equipe para muitos jogadores, introduzindo-os a treinos organizados, preparação para adversários, comunicação em time e a pressão por resultados. Mais do que formar jogadores, o Tier 3 também é um campo de aprendizado para futuros coaches e membros de comissões técnicas, como a própria trajetória de Moita demonstra.
Contudo, a construção de uma base sólida no Brasil enfrenta desafios estruturais significativos. A dimensão continental do país dispersa talentos por diversas regiões, com oportunidades competitivas frequentemente concentradas em poucos centros. Criar uma estrutura que conecte esses jogadores, equipes e treinadores exige investimento, organização e continuidade. A falta dessas conexões pode resultar em talentos desperdiçados por não encontrarem o caminho para o desenvolvimento.
A circulação de conhecimento é outro gargalo. Moita relata a dificuldade em obter orientação de profissionais mais experientes no início de sua carreira e a existência de um certo receio em compartilhar conhecimento. Essa troca é vital para o crescimento do cenário. A história de um jogador brasileiro que descobriu uma mecânica de jogo anos após sua existência na Coreia do Sul ilustra a diferença de conhecimento acumulado entre regiões mais desenvolvidas e o Brasil.
O que Observar em um Futuro Profissional
Para quem acompanha League of Legends e busca identificar talentos promissores, Moita sugere um olhar além das estatísticas de abates ou jogadas espetaculares. A observação atenta do minimapa e da movimentação do jogador revela muito sobre seu entendimento tático e capacidade de antecipação. Acompanhar para onde um jogador se desloca, como se posiciona em relação aos companheiros e como reage às informações do mapa pode indicar um potencial profissional que o placar, por si só, não revela. Essa análise aprofundada, que vai além do óbvio, é essencial não apenas para identificar talentos, mas também para construir um cenário competitivo mais robusto e interconectado no Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





