A Arena Política e a Academia
É raro encontrar indivíduos que transitem com maestria entre a análise acadêmica rigorosa e a ação ativista de impacto. Leah Stokes, cientista política da UC Santa Barbara, exemplifica essa rara combinação. Autora de "Short Circuiting Policy", obra seminal sobre o setor de energia nos Estados Unidos, Stokes foi peça-chave na elaboração da Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act - IRA), um marco legislativo para o clima nos EUA, considerado uma das leis mais significativas do século XXI. Sua dedicação ao projeto se estendeu a momentos de profunda vulnerabilidade pessoal, como o período em que suas filhas recém-nascidas, prematuras, permaneceram na unidade de terapia intensiva neonatal, enquanto ela contribuía para a redação da legislação.
"The Carbon Wave: A Story of Democracy, Parenthood and the Race to Protect Our Planet" é o relato íntimo dessa saga. O livro oferece um olhar privilegiado sobre os corredores do poder em Washington, as negociações no Senado e as mobilizações populares. O próprio Bill McKibben, autor da entrevista, reconhece sua proximidade com Stokes e seu endosso ao livro, admitindo uma leitura não totalmente desinteressada. A conversa entre os dois se aprofunda em questões cruciais: a realidade da tramitação de leis, as motivações por trás das decisões de figuras como Joe Manchin e as estratégias para manter a resiliência diante de críticas, inclusive vindas de dentro do próprio movimento progressista.
O Processo Criativo e a Narrativa
A decisão de Stokes de escrever "The Carbon Wave" responde a uma necessidade de oferecer ao público um vislumbre autêntico dos mecanismos da mudança política e do papel que cada indivíduo pode desempenhar. Ela compara seu trabalho com o de McKibben em "Oil and Honey", que permitiu aos leitores acompanhar a campanha contra o oleoduto Keystone XL e a natureza improvisada do ativismo. Stokes argumenta que a política climática é intrinsecamente ligada a dinâmicas de poder, e que a falta de compreensão sobre como exercê-lo leva indivíduos a direcionarem frustrações a aliados próximos, em vez de aos verdadeiros detentores do poder. A complexidade dessa narrativa, ela explica, demandava o formato de um livro, indo além de sugestões superficiais como "canudos de papel" e focando em ações concretas como a filiação a campanhas e organizações.
O processo de escrita foi um ato de malabarismo. Conciliar a pesquisa acadêmica, o ativismo climático e a maternidade de filhas pequenas exigiu disciplina e criatividade. Stokes utilizou um "documento de campo" gigante, onde anotava pensamentos noturnos, citações marcantes e problemas enfrentados. Esse material bruto serviu de semente para o projeto. A fase seguinte envolveu entrevistas extensas com as figuras centrais da negociação da IRA, buscando recriar suas histórias com fidelidade e imergir o leitor nos momentos cruciais da negociação. A transição de um livro acadêmico para uma obra de não ficção narrativa e memórias foi um desafio, mas, segundo Stokes, o livro foi bem recebido por colegas por sua capacidade de ser lido em múltiplos níveis: como uma história envolvente e como uma análise conceitual profunda. A acessibilidade, especialmente para quem desconhece figuras como o senador Joe Manchin, foi um princípio norteador, buscando gerar não apenas compreensão, mas também conexão emocional.
A Realidade da "Fábrica de Leis" e a Resiliência
A experiência de Stokes na elaboração da IRA ofereceu uma perspectiva visceral sobre o processo legislativo, desmistificando a visão simplificada popularizada por programas como "Schoolhouse Rock". A "fábrica de leis", segundo ela, é um ambiente de intenso conflito, não apenas entre partidos, mas também dentro de coalizões e movimentos sociais. A "luta pela promulgação" (fight of enactment), conceito desenvolvido no livro, descreve o momento em que grupos precisam decidir se um texto legislativo é suficientemente bom, gerando atritos internos. Um exemplo citado por Stokes é a própria reação à IRA, que, apesar de conter avanços significativos, também incluiu concessões dolorosas, levando a divisões dentro do movimento climático.
Stokes relata ter sido alvo de ataques pessoais severos, inclusive de dentro do próprio movimento, em um momento de grande vulnerabilidade pessoal e profissional. A experiência, descrita como a de ser "caçada por um urso", foi atenuada pela perspectiva histórica oferecida por Bill McKibben, que contextualizou os ataques como parte de um padrão de conflitos internos em espaços progressistas. A depersonalização desses momentos e a comparação com ativistas que enfrentam perigos físicos em outras partes do mundo foram estratégias para lidar com a pressão. A segurança proporcionada por um sistema democrático, mesmo com suas falhas, é vista como um privilégio, contrastando com a realidade de ativistas que sofrem violência e morte por defenderem o meio ambiente.
O Legado para as Futuras Gerações
A aprovação da Lei de Redução da Inflação, que evoluiu de propostas ambiciosas como o Green New Deal, foi marcada por negociações árduas, muitas vezes frustrantes, e por concessões significativas, em grande parte devido à influência do senador Joe Manchin. Stokes buscou humanizar Manchin, explorando suas motivações, incluindo preocupações com seus eleitores em West Virginia e pressões inflacionárias. A reação pública e a percepção de um momento crítico para o planeta podem ter influenciado sua decisão final. A autora sugere que, apesar das falhas, o processo pode ser visto como um triunfo do movimento climático de longo prazo, evitando que a inação se tornasse seu principal legado.
A experiência de Stokes na UTI neonatal com suas filhas prematuras enquanto trabalhava na legislação sublinha uma visão expandida de segurança infantil. Proteger os filhos, para ela, transcende medidas imediatas, englobando a necessidade fundamental de enfrentar a crise climática. A força coletiva, através de grupos e organizações, é apresentada como o caminho para gerar um impacto significativo e garantir um futuro seguro para as próximas gerações. Apesar das urgências e desafios, Stokes expressa um otimismo cauteloso, alinhado à ideia de que as tecnologias necessárias já existem. A história da luta climática, embora repleta de suspense, agora exige ação. O livro de Stokes é um registro valioso desse processo, oferecendo uma narrativa poderosa sobre como a legislação climática se torna realidade em uma democracia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





