Alan Greenspan, o lendário presidente do Federal Reserve que comandou a política monetária americana entre 1987 e 2006, faleceu nesta semana aos 100 anos. Sua trajetória, marcada por uma retórica deliberadamente enigmática, deixou uma marca indelével na história econômica, especialmente pela sua capacidade de identificar tensões especulativas muito antes de se tornarem crises sistêmicas.
O momento de sua partida coincide com um período de efervescência tecnológica que remete aos anos da bolha pontocom, época em que Greenspan cunhou a célebre expressão "exuberância irracional". A frase, dita em 1996, continua sendo uma referência fundamental para investidores que tentam decifrar o valor intrínseco de empresas cujos modelos de negócio se baseiam em inovações rápidas e intangíveis.
O enigma da avaliação de ativos
Em seu discurso de 1996 no American Enterprise Institute, Greenspan questionou a lógica convencional de precificação aplicada a uma economia movida por software e serviços. Ele destacou que, diferentemente de bens duráveis, a natureza de produtos como software ou serviços especializados torna a avaliação de longo prazo extremamente complexa.
O ex-presidente do Fed argumentava que a ausência de métricas tradicionais de custo unitário dificultava a previsibilidade. Essa incerteza, segundo ele, criava um terreno fértil para que o otimismo excessivo dos investidores escalasse valores de ativos a patamares desconectados de qualquer realidade produtiva, resultando inevitavelmente em contrações prolongadas.
A analogia da loteria e a realidade atual
Greenspan também ficou famoso por comparar o frenesi de compra de ações de empresas de internet a bilhetes de loteria. Em 1999, ele observou que investidores pagavam prêmios exorbitantes por chances remotas de sucesso, ignorando que a grande maioria das companhias estava fadada ao fracasso. O tempo provou que, embora muitos fracassassem, aqueles que sobreviveram alteraram a economia global.
Hoje, a mania da inteligência artificial apresenta paralelos e contrastes. Ao contrário da era pontocom, onde muitas empresas eram pequenas e sem receita, o capital atual flui para gigantes como OpenAI e Anthropic, que já operam com valuations de centenas de bilhões. A pergunta central de Greenspan sobre quando o entusiasmo se torna irracional permanece sem resposta clara no mercado de tecnologia de 2026.
Implicações para o mercado global
Para reguladores e investidores, o desafio de Greenspan permanece atual: como garantir a confiança em ativos que desafiam os modelos contábeis tradicionais? A tensão entre o valor de mercado e a realidade operacional é uma constante que afeta desde startups de IA até grandes conglomerados de infraestrutura tecnológica.
No Brasil, onde o ecossistema de venture capital busca amadurecimento, a lição de Greenspan serve como um lembrete sobre a importância da disciplina na alocação de capital. A euforia em torno de novas tecnologias pode mascarar riscos estruturais, exigindo que gestores olhem além das promessas de crescimento exponencial e foquem na sustentabilidade real dos negócios.
O futuro sob a lente da incerteza
O que permanece incerto é se a atual escala de investimentos em IA será capaz de gerar retornos comparáveis aos das gigantes da internet ou se estamos diante de uma nova correção severa. A história sugere que o mercado tende a oscilar entre o otimismo cego e o pessimismo extremo.
Observar a trajetória da SpaceX e o comportamento das empresas que buscam IPO nos próximos meses será fundamental para entender se a lição de Greenspan foi, de fato, aprendida. O legado do ex-presidente do Fed não oferece respostas prontas, mas fornece o ceticismo necessário para navegar tempos de euforia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Crunchbase News





