A Bienal de Veneza de 2026 serviu como palco para um tributo coletivo à obra de Etel Adnan, artista e escritora libanesa-americana cuja influência atravessa fronteiras geográficas e disciplinas artísticas. Durante o evento, realizado no Pavilhão Francês, nomes como a designer Michelle Lamy e a poeta Anne Waldman celebraram o lançamento de 'My Center Is Not in the Solar System', uma antologia que compila homenagens e registros inéditos da autora, falecida em 2021 aos 96 anos.

A publicação, coeditada pela MACK e pela revista Bidoun, não apenas documenta a trajetória de Adnan, mas explicita como sua prática — que transita entre a pintura abstrata e a poesia política — permanece um ponto de referência para novos criadores. Segundo reportagem do Lit Hub, o volume funciona como uma espécie de coro, unindo vozes que encontram na obra de Adnan uma lente para interpretar as tensões do presente.

A trajetória de uma mente errante

Nascida em Beirute em 1925, Adnan construiu uma carreira marcada pelo que se pode chamar de "geografia da dispersão". Filha de um oficial sírio do Império Otomano e de uma grega, ela viveu a queda de impérios e a realidade do exílio, fatores que moldaram sua sensibilidade artística. Sua formação foi um mosaico linguístico, passando pelo grego, árabe, turco, inglês e francês, o que lhe conferiu uma perspectiva singular sobre a identidade e a pertença.

Durante a década de 1960, Adnan demonstrou sua postura política ao abandonar o uso do francês em protesto contra a repressão na Argélia. Essa atitude de engajamento, aliada à sua produção visual — famosa pelas representações geométricas e vibrantes do Monte Tamalpais, na Califórnia — consolidou seu status como uma figura que se recusava a ser categorizada, mantendo sempre uma postura de resistência intelectual.

O mecanismo do pensamento em Adnan

O que torna a obra de Adnan tão duradoura, segundo os colaboradores da antologia, é sua capacidade de transformar o horror e a incerteza em uma forma de inteligibilidade visceral. Em livros como 'O Apocalipse Árabe' (1980), ela delineou a destruição de Beirute não através de uma narrativa linear, mas por meio de uma "litania de cores e horrores". Essa técnica de não fixar o significado, mas de entregar-se à indeterminação, é o que muitos jovens poetas, como Aria Aber, apontam como sua maior lição.

Para Adnan, a escrita e a pintura eram extensões de um processo de questionamento constante sobre como viver em meio à violência sistêmica. A antologia revela que essa clareza de pensamento não era apenas estética, mas relacional. Seus diálogos com outros artistas e escritores, registrados em cartas e transcrições, mostram uma pensadora que via a amizade e o amor como os únicos antídotos reais para a desolação das crises mundiais.

Implicações para a nova geração

Para poetas como Brandon Shimoda e Aria Aber, Adnan não é apenas uma figura histórica, mas uma "estrela-guia" em suas próprias cosmologias espirituais. A leitura de suas obras durante a pandemia, por exemplo, ofereceu a muitos artistas um senso de refúgio e clareza periférica. Esse fenômeno sugere que a relevância de Adnan reside na sua capacidade de oferecer uma "totalidade alternativa" em um mundo fragmentado.

O impacto de Adnan vai além da literatura. Ao desafiar as noções de centralidade, ela força seus leitores a repensarem o próprio papel como observadores do mundo. A antologia, ao incluir esboços inéditos e correspondências íntimas, humaniza ainda mais a figura da artista, transformando-a em uma interlocutora presente, capaz de debater com Nietzsche ou citar poetas sufis com a mesma naturalidade com que discute a arquitetura ou o cotidiano.

Perspectivas e o que permanece incerto

O que permanece em aberto, após a leitura desta nova antologia, é a dimensão do que ainda será descoberto em seus arquivos. Adnan deixou um vasto rastro de transmissões — cartas, gravações e rascunhos — que continuam a ser processados por pesquisadores. A forma como essa obra será interpretada por gerações que não tiveram o privilégio de sua correspondência direta ainda é uma questão em aberto.

Observar a recepção de seu trabalho nos próximos anos dirá muito sobre a longevidade da poesia como ferramenta política. Se, como ela dizia, "não devemos ter certeza de que é ela" quando a encontramos, talvez o convite seja para que cada leitor encontre sua própria Adnan nas páginas de seus livros, mantendo vivo o jogo de opacidades e revelações que ela tão bem cultivou.

O legado de Adnan, portanto, não se encerra em uma biografia ou em um catálogo de obras, mas na disposição de continuar perguntando, mesmo quando as respostas parecem impossíveis de encontrar. A antologia é, acima de tudo, um convite para que novos viajantes sigam seus passos, aceitando a indeterminação como um modo de ser no mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub