A poucos dias da estreia de sua primeira grande série de TV, Leo Reich, 28, exibe um curativo improvisado em um dedo ferido por uma faca de pão. A cena, quase um clichê do hipsterismo londrino, antecipa o universo agridoce de "It Gets Worse", sua nova aposta no Channel 4. A série é um retrato afetuoso e incisivo dos grupos de amigos da casa dos 20 e poucos anos, onde as preocupações triviais ganham proporções existenciais, mesmo com o mundo à beira do colapso. Não à toa, a crítica já a aponta como a resposta britânica e de gênero fluido de "Girls", série que rendeu notoriedade a Lena Dunham, que inclusive aparece na produção.
"It Gets Worse" acompanha três amigos universitários despejados de seu apartamento, cujas vidas tomam rumos distintos. Ethan (o próprio Reich) é um jovem gay em espiral, forçado a voltar para a casa da mãe; Abi (Emily Fairn) navega um relacionamento heterossexual insatisfatório enquanto trabalha em um escritório; e Sam (Olive Gray), uma tutora com ambições intelectuais, busca contentamento autoimposto em um antigo armazém. Em meio a dilemas como a estranheza de um namorado ter um vibrador ou a validade de um emprego, a série questiona: "E se a sua vida pudesse literalmente não ser mais fácil?". Reich explica que os problemas dos personagens são "existenciais", pois suas rotinas são simples, canalizando a ansiedade para um lugar "amorfo e inespecífico".
O Ascensão de um Observador Sagaz
Essa capacidade de destrinchar o cotidiano em observações pungentes parece vir de uma trajetória peculiar. Reich, que se descreve como um "garoto tímido de Londres" com aspirações iniciais de trabalhar em reservas naturais, descobriu sua vocação para o estrelato por volta dos 12 anos, ao confrontar sua homossexualidade. "Percebi: 'Oh, Deus, sou gay. Tenho que ser uma estrela'." A experiência em um colégio exclusivamente masculino o ensinou a monetizar o estranhamento, transformando-o em um instinto cômico. Sua carreira de stand-up decolou, culminando em uma temporada aclamada no Edinburgh Fringe em 2022 com "Leo Reich: Literally Who Cares?!", show que foi gravado e adquirido pela HBO Max. O sucesso abriu portas para a criação de sua própria série, inspirada em "amigos saindo", algo que ele aprecia por sua "humildade e realismo", lembrando a era de ouro das sitcoms com episódios longos e focados em relacionamentos, como "New Girl".
Trivialidades Existenciais em Seis Atos
"It Gets Worse" se distingue pela ausência de ganchos ou soluções fáceis ao final de cada episódio. São seis capítulos de menos de 30 minutos que oferecem um vislumbre da Geração Z em sua insularidade e desastre. Reich, embora frequentemente rotulado como um "cusp Gen Zer gay de East London", evita categorizações rígidas para si e seus personagens. A série é um quebra-cabeça de personalidades que se unem apesar das diferenças, sem protagonistas tradicionais de sitcom. A identidade, segundo Reich, é abordada de forma "fluida na superfície", com classe, raça, gênero e sexualidade surgindo nas conversas, muitas vezes como fonte de atrito e incompreensão mútua. O próprio Ethan, personagem de Reich, é um "maelstrom" atraído por situações potencialmente "insalubres", mas a série também subverte essas generalizações, sugerindo que a busca por falhas pode levar a "revelações sobre o que você realmente precisa".
Um Elenco de Vozes e Neuroses
A jornada de Reich é pontuada por encontros significativos. Lena Dunham, que o descobriu e o escalou em sua série "Too Much", faz uma participação especial como a gerente de Abi, uma figura "parodicamente extrema" de uma "millennial girl boss". Andrew Scott aparece na cena de abertura como um terapeuta com fetiches peculiares, e a voz narrativa da aclamada autora Zadie Smith confere um tom literário à série. Reich enviou um "longo e lisonjeiro e-mail" a Smith, encantado por sua "maneira de falar em frases completas, com orações subordinadas", e obteve um sim entusiástico. Essas neuroses acumuladas, a fé cega em ideias audaciosas e o humor sardônico de Reich convergem em "It Gets Worse", moldando o comediante na estrela que ele sonhava ser desde a juventude.
A Busca por Respostas em um Mundo Caótico
O que permanece intrigante é como Reich, diagnosticado recentemente com transtorno bipolar, lida com a pressão de ser engraçado e criativo. Seu psiquiatra, em uma anedota memorável, prescreveu uma dose "placebo" para não comprometer seu humor. Essa dualidade entre a fragilidade pessoal e a força cômica é o cerne de sua obra. A série, com sua exploração das trivialidades que se tornam crises e das crises que se resolvem em momentos de lucidez, convida o espectador a refletir sobre suas próprias angústias. "It Gets Worse" não oferece respostas fáceis, mas espelha a complexidade da experiência jovem contemporânea, deixando a pergunta: em um mundo em constante turbulência, onde encontramos nosso lugar e nosso humor?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · i-D




