O memorial de Thiepval, na França, ergue-se como um lembrete austero dos mais de 72 mil soldados britânicos cujos corpos nunca foram identificados após a Batalha do Somme. Em um raio de poucos quilômetros, cemitérios alemães e aliados guardam o destino de milhões de jovens cujas vidas foram ceifadas em um conflito que, segundo a historiografia, alterou permanentemente a trajetória do século XX. A magnitude da perda, que atingiu cerca de 40 milhões de baixas entre militares e civis, não foi apenas uma tragédia humana, mas o colapso de uma ordem global que, até 1914, acreditava na progressão linear da civilização e na estabilidade do comércio internacional.

Segundo análise do historiador Odd Arne Westad em sua obra recente, o mundo contemporâneo apresenta semelhanças estruturais preocupantes com aquele período. A transição de um sistema presidido por superpotências para uma era de multipolaridade, marcada por disputas territoriais, protecionismo e uma crescente desconfiança mútua entre nações, sugere que as engrenagens que moveram o mundo para a catástrofe há mais de cem anos ainda estão operantes. A leitura aqui é que a estabilidade das últimas décadas, embora não tenha sido pacífica, ofereceu uma previsibilidade que agora se dissolve em um cenário de incerteza crescente.

A falácia da estabilidade perpétua

O período que antecedeu 1914 era, em muitos aspectos, tão globalizado quanto o atual, com fluxos comerciais intensos e uma interdependência econômica que muitos acreditavam ser um seguro contra guerras. No entanto, o surgimento de nacionalismos agressivos e a percepção de que a globalização não beneficiava a todos criaram o terreno fértil para o conflito. O historiador nota que a retórica política da época, focada em culpar estrangeiros por problemas internos, espelha as tensões populistas observadas hoje em potências como Estados Unidos, China e nações europeias.

Vale notar que a crença de que a tecnologia ou o poderio militar seriam suficientes para dissuadir o confronto provou-se um erro fatal. Antes da Primeira Guerra, especialistas argumentavam que a sofisticação das armas de longo alcance e da artilharia tornaria a guerra impensável. A história, contudo, demonstrou que a percepção de ameaça iminente e a falta de canais de comunicação eficazes superaram qualquer racionalidade baseada no medo da destruição mútua.

O mecanismo do ressentimento mútuo

Um dos pontos mais críticos levantados pela análise é a forma como as queixas entre grandes potências são fundidas e tratadas como provas de intenções agressivas. Em Washington e Pequim, por exemplo, questões de tecnologia, política naval e alianças comerciais são frequentemente agrupadas sob uma única narrativa de hostilidade, dificultando qualquer tentativa de dissociação dos problemas para torná-los manejáveis. Esse fenômeno de "fusão de ressentimentos" foi um dos motores que acelerou a marcha para a guerra em 1914.

Além disso, o papel da opinião pública não pode ser subestimado. Dados atuais indicam que o nível de desconfiança entre populações de grandes potências é significativamente maior do que o registrado antes da Grande Guerra. Quando uma parcela expressiva da sociedade acredita que o conflito é uma luta de vida ou morte — seja ela civilizacional ou econômica —, o espaço de manobra para líderes políticos que buscam desescalar tensões torna-se perigosamente restrito.

Implicações para a ordem global

A desintegração do consenso sobre o comércio livre e a imposição de tarifas e embargos são sinais de que a estrutura de cooperação internacional está sob severa pressão. Para as nações, a alternativa ao diálogo tem sido a busca por soberania absoluta e a militarização de áreas sensíveis, como o Mar do Sul da China ou as fronteiras europeias. O risco, para reguladores e formuladores de políticas, é que a falta de compromissos temporários sobre questões territoriais transforme crises regionais em confrontos globais de larga escala.

Para o ecossistema global, o custo de um conflito entre grandes potências seria um retrocesso de gerações no desenvolvimento humano. Diferente de guerras por procuração, um embate direto entre potências nucleares ou tecnológicas teria consequências catastróficas, não apenas em vidas perdidas, mas na destruição da infraestrutura de progresso que a humanidade levou décadas para reconstruir após os conflitos do século passado.

O futuro sob a sombra do passado

O que permanece incerto é se a diplomacia contemporânea conseguirá superar o peso dos nacionalismos que dominam o discurso político atual. A história sugere que a paciência e a disposição para garantias mútuas são as primeiras vítimas quando o medo se torna o motor da política externa. Observar os próximos movimentos das potências em relação a tecnologias críticas e disputas territoriais será essencial para entender se o mundo caminha para uma nova era de conflitos ou se ainda há tempo para uma reconfiguração das relações.

O desafio para as próximas gerações é evitar que a fatalidade, o jingoísmo e a estupidez política conduzam o mundo a um desfecho que, em retrospecto, parecerá evitável. A lição de 1914 não é que a guerra é inevitável, mas que a negligência na manutenção da paz pode ser catastrófica. O futuro depende de uma compreensão clara de que o desempenho passado das instituições globais não garante a segurança futura. Com reportagem de Brazil Valley

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