O sono, um pilar fundamental para a saúde física e mental, tem sido negligenciado no ambiente corporativo, muitas vezes por influência direta de seus líderes. Segundo um neurocientista especializado em sono, a cultura de trabalho que valoriza jornadas extenuantes e a privação de descanso está afetando negativamente o bem-estar, o desempenho e até mesmo o comportamento ético dos funcionários. A pesquisa sugere que líderes que, intencionalmente ou não, promovem a ideia de que dormir pouco é um sinal de comprometimento estão, na verdade, minando a produtividade e a integridade de suas equipes.

Estudos recentes, como os conduzidos pelo professor Christopher Barnes, indicam uma correlação direta entre a atitude dos gestores em relação ao sono e a qualidade do descanso de seus subordinados. Quando líderes se vangloriam de dormir pouco, enviam mensagens em horários incomuns ou recompensam respostas rápidas à madrugada, eles sinalizam que o sacrifício do sono é esperado e valorizado. Essa mentalidade leva a uma piora na qualidade do sono dos funcionários, que, por sua vez, tendem a apresentar comportamentos menos éticos no dia seguinte. A percepção de que o sono deve ser sacrificado em nome do trabalho cria um ciclo vicioso de exaustão e improdutividade.

O Que os Líderes Esperam e o Que Permitem

A pesquisa de Barnes e colegas revelou que a forma como os gestores tratam o sono de suas equipes tem um impacto tangível. Funcionários cujos gestores demonstram desvalorizar o sono relatam dormir menos e com pior qualidade. Esse cenário não se limita a um desconforto pessoal; a falta de sono afeta a capacidade cognitiva, a tomada de decisões e a resiliência emocional, fatores cruciais para o desempenho profissional e a conduta ética. A atitude dos líderes, seja através de mensagens tarde da noite ou da celebração de quem trabalha em horários não convencionais, molda a cultura organizacional e define o que é considerado aceitável e, mais importante, o que é valorizado.

Um estudo realizado no meio militar com pelotões do Exército dos Estados Unidos demonstrou o poder da "liderança do sono". Ao treinar líderes para priorizar o descanso de suas equipes, incentivar horas extras de sono antes de dias exigentes e dar o exemplo com hábitos saudáveis, observou-se um aumento significativo na quantidade de sono dos soldados. Esses resultados sugerem que, ao mudar as condições ao redor do trabalho e modelar comportamentos saudáveis, é possível melhorar o sono da equipe sem que o tema precise ser explicitamente abordado. O que é permitido pelos líderes — como reuniões muito cedo ou respostas a e-mails noturnos — define a fronteira do que os funcionários podem ou não fazer em relação ao seu descanso.

A Cultura de Valorização do Sacrifício

Além do que é permitido, o que é valorizado dentro de uma organização desempenha um papel crucial na saúde do sono. Uma descoberta alarmante é que seis em cada dez líderes em diversas empresas percebem o pouco sono como um sinal de comprometimento e dedicação, uma espécie de "medalha de honra". Essa percepção leva muitos líderes a esconderem seu próprio cansaço, não por falta de sono, mas para manter uma imagem de força e dedicação. A cultura que glorifica dormir pouco cria uma performance de sacrifício, onde o esforço aparente é mais valorizado do que o bem-estar real.

Em estudos de 2024, observou-se que indivíduos que falavam sobre a falta de sono para causar uma boa impressão eram recompensados com maior status. Homens eram vistos como mais fortes e mulheres como mais abnegadas, embora este último benefício dependesse do reconhecimento prévio de suas contribuições. Essa dinâmica incentiva a ocultação do custo do sacrifício — lentidão mental, irritabilidade, dificuldade de concentração — em favor da exibição do esforço. A organização, nesse modelo, exige que se exiba o sacrifício, mas se esconda o seu custo, uma exigência incompatível que gera estresse e exaustão.

Implicações para Líderes e Equipes

A relação entre liderança e sono é complexa e multifacetada. O que os líderes permitem afeta diretamente as horas de sono de suas equipes, enquanto o que eles valorizam determina se os funcionários se sentirão à vontade para admitir sua exaustão. Mudar apenas um desses aspectos pode não ser suficiente. Líderes mais descansados podem continuar escondendo seu cansaço se a cultura não mudar, e líderes honestos podem continuar dormindo pouco se as condições de trabalho não forem ajustadas. A consequência é um ambiente onde a produtividade e a ética são comprometidas, e onde o bem-estar dos colaboradores é secundário.

Para o ecossistema corporativo brasileiro, essas descobertas ressaltam a necessidade de uma reflexão profunda sobre as práticas de gestão. A adoção de uma cultura que priorize o descanso e o bem-estar não é apenas uma questão de saúde, mas também de sustentabilidade e performance a longo prazo. Empresas que conseguirem alinhar as expectativas de seus líderes com a necessidade de um sono adequado colherão os frutos de equipes mais engajadas, criativas e éticas.

Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante

O primeiro passo para uma liderança mais saudável em relação ao sono é a autoconsciência e a observação atenta do ambiente de trabalho. Uma "avaliação de recuperação" pode ajudar líderes a identificar seus próprios padrões de sono e os sinais de exaustão em suas equipes. Perguntas sobre a quantidade de sono, a percepção de necessidade de descanso e a ocultação do cansaço podem revelar verdades incômodas. Observar erros em tarefas rotineiras, irritabilidade, dificuldade de concentração e outros sinais físicos e comportamentais pode indicar que a equipe está sofrendo com a privação de sono, mesmo que tentem disfarçar.

A pesquisa anônima com a equipe é outra ferramenta valiosa para entender a percepção coletiva sobre o sono, o comprometimento e a permissividade da empresa. Esses dados podem servir como ponto de partida para conversas francas sobre energia e bem-estar, sem necessariamente focar diretamente no "sono". O desafio reside em transformar esses insights em ações concretas, mudando a cultura organizacional de forma a permitir e valorizar o descanso como parte essencial da produtividade e do sucesso. A jornada para um sono mais saudável no trabalho é contínua e exige um compromisso genuíno de todos os níveis da liderança.

A autoconsciência e a mudança cultural são os pilares para reverter o quadro de privação de sono no ambiente de trabalho. Ao entender e abordar os comportamentos que prejudicam o descanso, as organizações podem criar um futuro onde o bem-estar e o desempenho caminham lado a lado, impulsionados por líderes que valorizam o sono de suas equipes tanto quanto os resultados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney