A farmacêutica Eli Lilly optou por uma rota de mercado para seu novo tratamento contra o Alzheimer na Espanha. Após a comissão interministerial de preços do país negar o financiamento público para o donanemab, a companhia anunciou que o medicamento estará disponível através do sistema de saúde privado. A decisão, segundo reportagem da Forbes Espanha, efetivamente cria uma bifurcação no acesso a uma das terapias mais promissoras das últimas décadas.

O movimento da Lilly na Europa não é um fato isolado, mas um prólogo para um dilema que sistemas de saúde em todo o mundo, incluindo o SUS no Brasil, enfrentarão em breve. A chegada de uma nova classe de medicamentos que não curam, mas modificam o curso de doenças devastadoras, força uma pergunta desconfortável: qual o preço da inovação e quem pode pagar por ela? A Espanha oferece o primeiro estudo de caso em larga escala sobre como essa tensão pode se desenrolar.

A fronteira entre inovação e acesso

Por mais de duas décadas, o tratamento para o Alzheimer esteve estagnado em terapias puramente sintomáticas. O donanemab, assim como seu concorrente lecanemab, representa um salto científico. São anticorpos monoclonais que atacam as placas de beta-amiloide no cérebro, um dos marcadores biológicos da doença. Estudos indicam que o donanemab pode retardar o declínio cognitivo em até 30% e reduzir o risco de progressão para demência moderada em 48% em certas populações, oferecendo anos de maior autonomia funcional.

Contudo, essa inovação tem um custo e pré-requisitos. Nos Estados Unidos, o tratamento custa cerca de US$ 24 mil por paciente ao ano. Além disso, sua eficácia depende de um diagnóstico muito precoce, confirmado por biomarcadores. Para um sistema público de orçamento finito, a análise de custo-benefício é complexa. A decisão de não financiar o medicamento, embora criticada por associações de pacientes e neurologistas, reflete o desafio de incorporar terapias de alto custo que oferecem melhorias incrementais, e não a cura, para um grupo restrito de pacientes elegíveis.

O dilema da equidade

Lideranças médicas na Espanha, como o presidente da Sociedade Espanhola de Neurologia, alertaram para a criação de uma barreira econômica que "vulnera o princípio de equidade". A decisão coloca profissionais de saúde em um "dilema ético", pois podem identificar pacientes que se beneficiariam da terapia, mas que dependem de um sistema público que não a oferece. O resultado é um sistema de saúde de duas velocidades, onde a capacidade de pagamento determina o acesso a um tratamento que pode alterar a trajetória de vida de um paciente.

Do lado da Lilly, a estratégia é pragmática. A empresa afirma que continuará buscando o diálogo para a inclusão no sistema público, mas que não poderia "atrasar mais sua disponibilidade" para quem pode pagar. É uma manobra que estabelece o medicamento no mercado, gera receita e, ao mesmo tempo, aumenta a pressão sobre o governo. À medida que pacientes da rede privada começam a se beneficiar, a desigualdade se torna mais visível, e a demanda por acesso universal tende a crescer.

O caso espanhol serve como um laboratório. Conforme a biotecnologia avança, mais terapias com este perfil — caras, complexas e modificadoras de doenças crônicas — chegarão ao mercado. A questão para países como o Brasil não é se esse debate ocorrerá, mas como ele será conduzido. A resposta definirá se a fronteira da medicina será um bem para todos ou um privilégio para poucos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España