O som que ecoa pelo Hamburger Bahnhof, em Berlim, não é o silêncio típico de uma galeria, mas o ruído rítmico de pequenas peças de madeira sendo movidas, empilhadas e reorganizadas. No centro do imenso salão histórico, 400 mil cubos de madeira formam uma paisagem que parece respirar, ora expandindo-se em torres precárias, ora colapsando em campos planos de geometria simples. É aqui que Lina Lapelytė, uma das vozes mais singulares da arte contemporânea europeia, convida o visitante a não apenas observar, mas a habitar a própria ideia de duração. A obra, intitulada "We Make Years Out of Hours", é um exercício de paciência que transforma o espaço expositivo em um cronômetro físico, onde a contagem não é feita por ponteiros, mas pelo esforço exaurível do corpo humano.

Comissionada pelo CHANEL Next Prize, a instalação é um desdobramento da pesquisa de Lapelytė sobre o peso do tempo e a invisibilidade do trabalho cotidiano. Ao colocar o público e os performers para manipular os cubos durante meses, a artista retira a obra de seu pedestal intocável e a lança na arena do fazer contínuo. Não se trata de uma escultura estática, mas de um organismo vivo que se alimenta da energia de quem o manipula, tornando a própria presença do espectador uma forma de matéria-prima. É uma abordagem que desafia a lógica do objeto de arte como mercadoria finalizada, preferindo entendê-lo como um processo que se renova a cada hora, a cada dia, até o encerramento da mostra em janeiro de 2027.

A arquitetura da repetição e o peso do tempo

A prática de Lina Lapelytė sempre habitou as fronteiras fluidas entre a música, a performance e a instalação, mas é na escala monumental que sua investigação sobre o tempo atinge uma nova profundidade. Ao utilizar 400 mil cubos, a artista não busca apenas o impacto visual da quantidade, mas sim a granularidade da experiência humana. Cada cubo representa uma unidade de tempo, um momento que, isolado, parece insignificante, mas que, acumulado, constrói a própria estrutura de nossas vidas. Essa lógica de repetição encontra eco na história da arte minimalista, mas Lapelytė a subverte ao injetar uma carga emocional e política que o minimalismo clássico muitas vezes evitava.

O Hamburger Bahnhof, uma antiga estação ferroviária convertida em museu, serve como o cenário ideal para essa reflexão. O espaço, que já foi um ponto de partida e chegada, agora abriga uma obra que trata da permanência e da transitoriedade. A escolha da madeira como material enfatiza a organicidade do tempo, um contraponto à rigidez industrial do edifício de tijolos e ferro. Ao permitir que os visitantes alterem as configurações da instalação, a artista democratiza o ato criativo, fazendo com que o tempo de cada indivíduo se torne parte de uma estrutura coletiva maior, quase como uma orquestra sem maestro.

O som da poesia como pulsação social

Para além da manipulação física dos cubos, a obra de Lapelytė é pontuada por performances semanais que utilizam a poesia como base para composições sonoras. Textos de autores como Etel Adnan, Mahmoud Darwish, Ocean Vuong e Forugh Farrokhzad ganham vida através de vozes que ecoam pelo hall, conferindo uma dimensão narrativa ao esforço físico dos participantes. A escolha desses poetas, cujas obras frequentemente exploram o exílio, a perda e a resistência, não é casual. Ela conecta a repetição mecânica dos cubos a uma história humana mais ampla, onde o trabalho é, muitas vezes, a única forma de sobrevivência ou de busca por significado em tempos de crise.

Nesse mecanismo de intersecção entre som e escultura, a artista cria um ambiente onde a performance não é um espetáculo, mas uma forma de labor compartilhado. Quando os cantores entoam versos sobre a passagem das horas, eles estão, na verdade, marcando o ritmo do trabalho dos visitantes. A música torna-se o metrônomo que regula a cadência da instalação, unindo o esforço individual em um coletivo invisível. É uma coreografia social onde o ato de empilhar madeira torna-se uma metáfora para a construção da memória, onde cada cubo posicionado é uma palavra em um poema maior sobre a existência.

Implicações e o papel do museu aberto

A permanência da exposição até 2027 levanta questões interessantes sobre o papel das instituições culturais no século XXI. Ao abraçar um projeto que exige tempo, manutenção e participação ativa, o Hamburger Bahnhof reforça sua identidade como um "museu aberto", um espaço que não apenas exibe arte, mas que permite que ela seja moldada pelo público. Essa postura desafia as expectativas do mercado de arte, que frequentemente valoriza a rapidez da produção e a imutabilidade da obra. Para os stakeholders, desde curadores até o público geral, a obra de Lapelytė serve como um lembrete de que a arte pode ser um exercício de resistência contra a aceleração constante do mundo moderno.

Para o ecossistema das artes visuais, a obra de Lapelytė oferece um contraponto à digitalização e à efemeridade das experiências virtuais. Em um momento em que a tecnologia busca automatizar e otimizar cada segundo, a instalação exige que o espectador pare, toque e construa. A tensão entre o esforço humano e a escala da obra convida a uma reflexão sobre o valor do trabalho, não apenas como produtividade econômica, mas como uma forma de conexão humana. A pergunta que permanece, portanto, não é sobre a estética da instalação, mas sobre o que fazemos com o tempo que nos é dado quando somos confrontados com a necessidade de construir algo juntos.

O futuro da duração como forma de arte

O que restará da instalação após 2027, quando os 400 mil cubos forem desmontados e a última performance for encerrada? A incerteza sobre o destino final da matéria-prima parece ser parte integrante da proposta da artista. A obra não busca a eternidade, mas sim o impacto da experiência vivida durante o período de ocupação do espaço.

Observar como o público irá interagir com essa estrutura ao longo dos próximos meses será o verdadeiro teste da proposta. Se a arte de Lapelytė conseguir, de fato, transformar a percepção do tempo de seus visitantes, ela terá alcançado algo que poucos projetos contemporâneos conseguem: a capacidade de tornar o invisível — o passar das horas — palpável e, por um breve momento, coletivamente significativo.

Enquanto os cubos continuam a ser movidos, resta a imagem de um salão em constante mutação, um espelho de nossas próprias tentativas de dar forma ao tempo. A pergunta que fica pairando no ar do Hamburger Bahnhof não é sobre a conclusão da obra, mas sobre qual estrutura cada um de nós está construindo com as horas que nos restam. Com reportagem de Hypebeast

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