Em Minneapolis, sob a atmosfera de uma convenção que ocorre apenas a cada quatro anos, Liz Shuler observa o horizonte da economia americana com uma cautela que mistura pragmatismo e urgência. À frente da AFL-CIO, a federação que representa 15 milhões de trabalhadores, ela não vê a inteligência artificial como um apocalipse inevitável, mas como uma encruzilhada histórica. Enquanto o Vale do Silício acelera seus modelos com o ímpeto de quem busca o lucro imediato, Shuler articula uma visão onde o sindicato deixa de ser um obstáculo para se tornar um arquiteto da nova infraestrutura laboral. A premissa é simples, embora raramente praticada: quem opera a máquina deveria ter assento na mesa onde o futuro da máquina é desenhado.

O novo modelo de parceria

A estratégia de Shuler ganhou contornos concretos após um diálogo improvável com Brad Smith, presidente da Microsoft. A parceria firmada em 2023, focada em treinamento e diretrizes para uma IA responsável, serve como um laboratório para o que ela chama de salto de fé. Para a líder sindical, a resistência corporativa ao trabalho organizado — que viu empresas americanas investirem 1,7 bilhão de dólares no ano anterior apenas para conter a formação de novos sindicatos — é um erro estratégico. Ela argumenta que a expertise de quem executa as tarefas diárias é um ativo subutilizado, capaz de mitigar riscos operacionais e aumentar a aceitação de novas tecnologias no chão de fábrica.

Lições de um passado industrial

Ao olhar para as transições industriais anteriores, Shuler identifica um padrão recorrente de exclusão que resultou em profundas cicatrizes sociais. Quando as leis comerciais favoreceram a deslocalização da produção, a falta de uma voz organizada dos trabalhadores deixou milhões de famílias para trás, criando as divisões econômicas que definem o cenário político atual. O medo de repetir esse erro é o motor de seu ativismo. Ela insiste que a economia da IA não precisa ser, necessariamente, um processo de substituição predatória, desde que haja um compromisso real com a inclusão e o diálogo setorial.

Tensões na economia da IA

A realidade, contudo, permanece bruta. Com os lucros corporativos em patamares recordes e a participação dos salários no PIB em mínimas históricas, o desequilíbrio de poder é evidente. Shuler não ignora o domínio dos chamados tech bros, cujas decisões unilaterais moldam a vida de milhões, mas ela aposta que a pressão por transparência e a necessidade de força de trabalho qualificada acabarão por forçar uma renegociação. O embate não é apenas sobre salários, mas sobre quem detém o controle dos guardrails em um sistema que avança sem freios.

O futuro da negociação coletiva

O que permanece em aberto é se o modelo de parceria com gigantes como a Microsoft será a exceção ou o início de uma tendência duradoura. O apoio popular aos sindicatos, que hoje atinge quase 70% da população americana, sugere que o terreno está fértil para novas formas de representação. A questão que paira sobre a convenção em Minneapolis não é apenas técnica, mas profundamente humana: conseguiremos criar tecnologia que sirva às pessoas, ou seremos apenas os espectadores da nossa própria obsolescência?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune