A visão de um futuro onde agentes de inteligência artificial realizam tarefas domésticas e recados, como fazer compras online sem intervenção humana, começa a enfrentar barreiras práticas. Lojas de e-commerce, que seriam o palco principal dessa automação, estão ativamente bloqueando o acesso de agentes de IA como Muse, da Meta, e Instinct. A resistência de varejistas como Amazon, Kohl's e eBay sinaliza um conflito entre a inovação em IA e a sustentabilidade dos modelos de negócio existentes.

O Precedente da Web e dos Livros

O bloqueio de agentes de IA por lojas online não é um fenômeno isolado. Ele ecoa precedentes na indústria de mídia e editorial. Grandes veículos de comunicação nos EUA e Reino Unido já implementaram bloqueios contra rastreadores de IA utilizados para treinamento de modelos, com cerca de 79% deles restringindo algum tipo de bot, segundo a Press Gazette. Plataformas como Cloudflare passaram a bloquear por padrão agentes e rastreadores de treinamento a partir de setembro. Da mesma forma, a Anthropic, criadora do Claude, chegou a um acordo de US$ 1,5 bilhão com autores e editoras para compensar o uso de cópias pirateadas no treinamento de seus modelos de linguagem. A premissa da IA agêntica, que busca agilizar tarefas, depende intrinsecamente da capacidade de acessar e processar informações e serviços de terceiros, muitas vezes sem um acordo explícito ou compensação.

A Resistência do Varejo e o Modelo de Negócio

No setor de e-commerce, a resistência é ainda mais explícita. A Amazon, por exemplo, não só bloqueou o Muse da Meta por não se identificar corretamente como IA e não gerenciar dados de usuários com a diligência esperada, mas também restringiu agentes de outras grandes empresas como OpenAI, Google, Anthropic e Perplexity. A alegação oficial, segundo um porta-voz da Amazon, é que esses agentes "devem operar de maneira transparente e respeitar as decisões dos provedores de serviços". Kohl's proibiu explicitamente compras por agentes de IA, enquanto o eBay exige permissão expressa do usuário. A verdadeira motivação, contudo, parece estar ligada à proteção do modelo de negócio. A Amazon, que faturou mais de US$ 68 bilhões em publicidade em 2025, depende de interações humanas para impulsionar compras impulsivas e reações a promoções. Agentes de IA, por sua natureza, não são suscetíveis a esses estímulos comerciais, o que ameaça diretamente as receitas de publicidade e vendas. Empresas como Walmart, Best Buy e Sephora já buscam contornar essa barreira através de alianças com Meta, enquanto Shopify permite compras de agentes em lojas que utilizam sua plataforma de pagamento.

Implicações para o Futuro do E-commerce

A capacidade de um agente de IA de efetivamente realizar compras é crucial para sua utilidade. Sem acesso às lojas, seu papel se limita a um mero recomendador. Uma pesquisa da Billions Network apontou que nenhuma das 51 grandes varejistas analisadas nos EUA oferecia um caminho confiável para agentes verificados completarem compras. Quase três quartos desses comércios utilizam regras de bloqueio de bots desenvolvidas para outras finalidades, e o CEO da Billions Network, Evin McMullen, destaca a dificuldade em distinguir um agente legítimo de um fraudulento. A falta de um padrão para a interação entre agentes de IA e plataformas de e-commerce pode atrasar significativamente a adoção em massa dessa tecnologia, cujo potencial de mercado, segundo Morgan Stanley, pode movimentar entre US$ 190 e US$ 385 bilhões até 2030.

Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante

A questão central é como varejistas e desenvolvedores de IA poderão convergir para um modelo que beneficie ambas as partes. Será que veremos acordos comerciais padronizados, onde agentes de IA pagam por acesso ou compartilham dados de forma regulada? Ou a resistência das lojas forçará os agentes a se tornarem apenas ferramentas de recomendação, perdendo seu potencial de automação completa? A ausência de uma regulamentação clara e de padrões técnicos para a operação desses agentes abre um campo de incertezas. A capacidade de compra autônoma, prometida como um divisor de águas, agora depende da habilidade de negociar seu espaço no ecossistema digital.

O bloqueio de agentes de IA por grandes varejistas expõe a complexa relação entre inovação tecnológica e modelos de negócio estabelecidos. Enquanto a promessa de conveniência e eficiência persiste, o caminho para sua plena realização no e-commerce ainda exige a resolução de desafios técnicos, de segurança e, sobretudo, econômicos. A decisão de abrir ou fechar as portas digitais para a automação definirá o futuro das compras online.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka