A Europa caminha para um cenário onde a longevidade se torna um pilar central da sua demografia e mercado de trabalho. Com a expectativa de vida média na União Europeia já superando os 81 anos, e a projeção de que a parcela da população com 80 anos ou mais dobrará até o fim do século, um desafio emerge com força: a adaptação das empresas a uma força de trabalho que vive e trabalha por mais tempo. Deanna Strable, CEO da Principal Financial Group, uma gigante americana em gestão de aposentadoria e ativos, sinaliza que nem empregadores nem funcionários estão devidamente preparados para essa transição demográfica.

O cenário é moldado por uma combinação de fatores: taxas de natalidade em queda, que reduzem o fluxo de jovens ingressando no mercado, e a aproximação da aposentadoria de milhões de trabalhadores da geração baby boomer. O resultado é um mercado de trabalho onde os trabalhadores mais velhos representam uma proporção cada vez maior. Em 2025, a Eurostat indicou que dois terços dos europeus entre 55 e 64 anos estavam empregados, um recorde que aponta para a necessidade de repensar carreiras, treinamento e o próprio conceito de aposentadoria.

Adaptação no Ambiente de Trabalho

Para Strable, a iminente realidade de pessoas permanecendo ativas profissionalmente por mais tempo exige uma reestruturação profunda nas práticas empresariais. Isso envolve não apenas a adaptação de modelos de contratação e gestão de carreiras, mas também a concepção de novas formas de trabalho e a oferta de treinamento contínuo, especialmente para profissionais em fases mais avançadas de suas trajetórias. A Principal, que emprega cinco gerações de trabalhadores, tem buscado ativamente soluções. A empresa investiu no treinamento de seus 19.000 funcionários em inteligência artificial, oferecendo os cursos em formatos variados para acomodar diferentes estilos de aprendizado. Além disso, expandiu seus programas de rotação, antes restritos a atuários, para áreas como TI, contabilidade e finanças. O objetivo é permitir que os colaboradores transitem para novas funções ao longo de carreiras mais extensas, em vez de sentirem a necessidade de buscar novas oportunidades em outras organizações.

Strable, que construiu sua própria carreira na Principal ao longo de 15 funções distintas, vislumbra um retorno do perfil de "lifers" – profissionais que dedicam a maior parte de sua vida a uma única empresa. Essa tendência se fortalece à medida que trabalhadores buscam empregadores que ofereçam suporte à adaptação e ao desenvolvimento contínuo, em contrapartida à incerteza de recomeçar em novas companhias. "Você pode ter o equivalente a 10 empregos diferentes em uma única empresa", argumenta a CEO, "ou pode começar de novo em 10 empresas diferentes". Essa filosofia sugere que a lealdade e o desenvolvimento interno podem se tornar um diferencial competitivo crucial para as empresas que souberem cultivar um ambiente propício a carreiras longas e multifacetadas.

O Desafio da Longevidade e o Gênero

A longevidade crescente impõe um dilema financeiro significativo: as pessoas precisarão poupar mais para a aposentadoria, a menos que permaneçam economicamente ativas por um período mais longo. Essa necessidade de maior poupança, contudo, corre o risco de agravar a já existente lacuna de gênero nas aposentadorias. Na União Europeia, mulheres vivem, em média, cinco anos a mais que homens, mas passam cerca de quatro anos a menos em trabalhos remunerados. Como resultado, a pensão média recebida por uma mulher é 24,5% menor que a de um homem, uma disparidade que mais que dobra a diferença salarial de gênero.

Strable alerta que essa lacuna pode se ampliar se empresas e o setor de previdência não agirem proativamente. Mulheres tendem a ter salários mais baixos, a trabalhar em regime de meio período com mais frequência e a interromper suas carreiras para cuidar de familiares, o que resulta em menor acúmulo de economias para a aposentadoria. Para uma mulher nascida hoje na UE, a expectativa de vida é de 84 anos, com projeções da Comissão Europeia indicando que esse número pode ultrapassar 90 anos até o fim do século. Essa pensão menor terá que sustentar um período de aposentadoria cada vez mais longo. "Isso é algo que todos nós deveríamos prestar atenção, pois pode piorar muito as coisas", adverte Strable.

A Responsabilidade Individual e o Papel das Empresas

Em toda a Europa, a responsabilidade pela garantia da aposentadoria tem migrado dos governos e empregadores para os indivíduos. Nesse contexto, as mulheres demonstram menor confiança na capacidade do sistema estatal de prover segurança financeira na velhice. Apenas 29% das europeias acreditam que o sistema de pensões de seu governo será suficiente para financiar sua aposentadoria, em comparação com 39% dos homens, segundo o Global Financial Inclusion Index da Principal. Na Alemanha, esse índice cai para 17% entre as mulheres.

Países como o Reino Unido, Irlanda e Holanda têm implementado estratégias que incluem a inscrição automática em planos de previdência e a substituição de pensões garantidas por poupanças pessoais. Embora essas medidas incentivem a poupança, elas transferem o ônus do financiamento da aposentadoria para os próprios poupadores. "O local de trabalho ainda é onde a maior parte da poupança para a aposentadoria acontece, o que dá aos empregadores influência sobre o quanto as pessoas guardam", observa Strable. Ela sugere a combinação da inscrição automática com a "auto-escalada" – um mecanismo comum nos planos americanos, mas raro na Europa –, onde as contribuições aumentam gradualmente ao longo do tempo, em vez de permanecerem no mínimo. Essa abordagem, atrelada a aumentos salariais anuais, pode tornar o acúmulo de poupança menos intimidador para os indivíduos.

Conclusão e Perguntas em Aberto

A segurança financeira, para Strable, é parte de um quadro maior: auxiliar as pessoas a viverem vidas mais longas, saudáveis e felizes, com os recursos necessários para desfrutar desses anos adicionais. À medida que as carreiras se alongam, o ambiente de trabalho se torna um fator cada vez mais crucial. "O principal trabalho de um CEO é criar uma cultura onde as pessoas queiram permanecer e trabalhar", afirma. A construção de um local de trabalho onde os indivíduos desejem passar suas carreiras pode se consolidar como uma vantagem competitiva significativa, especialmente em um cenário demográfico em rápida mutação. A questão que permanece é quão rapidamente as empresas europeias conseguirão se adaptar a essa nova realidade, garantindo que a longevidade se traduza em prosperidade e não em um fardo financeiro e social.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune