Luísa Cunha, figura central da arte conceitual portuguesa e mestre na exploração da linguagem como matéria-prima, faleceu na última segunda-feira, aos 77 anos, no Hospital de São José, em Lisboa. A artista, que travava uma batalha contra um câncer, deixa um corpo de trabalho que, desde o início da década de 1990, redefiniu as fronteiras entre o som, o objeto e a experiência do espectador.

Sua produção, marcada pela sutileza e pelo rigor, utilizava sussurros, comandos verbais e fragmentos de conversas para transformar galerias em espaços de reflexão profunda. Ao contrário da espetacularização, a obra de Cunha exigia a atenção plena, convidando o público a participar da construção dos sentidos em vez de apenas recebê-los de forma passiva.

A formação tardia e o rigor conceitual

Nascida em Lisboa em 1949, Cunha trilhou um caminho pouco convencional até as artes visuais. Antes de se dedicar à escultura e à performance, formou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa, um background que, segundo analistas, fundamentou sua obsessão pelo funcionamento da linguagem. Foi apenas em 1994 que concluiu o curso avançado de escultura no AR.CO, onde também lecionou, consolidando uma transição que trouxe para o campo artístico um olhar analítico sobre a estrutura das frases.

A Fundação EDP, que em 2021 concedeu a Cunha o seu prestigiado Grande Prémio de Arte, destacou a "audácia experimental" e a natureza multidisciplinar de sua trajetória. A instituição sublinhou como a artista operava em um jogo permanente de construção e desconstrução de significados, influenciando gerações de criadores que buscavam novas formas de abordar a subjetividade no espaço expositivo.

O mecanismo da escuta como resistência

O cerne da prática de Cunha residia na exploração da filosofia da linguagem e na mecânica da percepção. Em obras como "Do What You Have to Do" (1994), a repetição de comandos verbais por alto-falantes suspensos transformava frases simples em algo que oscilava entre a autoridade e o gesto de resistência. O crítico Miguel Amado, ao analisar tal peça em 2013, definiu Cunha como uma das investigadoras mais precisas na intersecção entre narrativas pessoais e a consciência coletiva.

Sua abordagem era, segundo a própria artista, um exercício de observação. Ela descrevia seu processo como um hábito de olhar sem metas preestabelecidas, encontrando objetos e sons para depois compreendê-los. Essa postura permitiu que sua arte borrasse as linhas entre o público e o privado, forçando o espectador a confrontar o silêncio e o sussurro como elementos fundamentais da arquitetura do ambiente.

Reconhecimento e impacto internacional

O prestígio de Cunha cresceu de forma constante ao longo de três décadas, culminando em uma presença marcante em instituições como o MAAT, a Fundação Serralves e a Bienal de Sydney. O ano de 2021 foi um marco, com a sua participação no programa "Studio Visits" da 34ª Bienal de São Paulo, que ampliou o alcance de sua obra para o público brasileiro e internacional, reforçando seu papel como uma das vozes mais importantes da arte contemporânea de Portugal.

O reconhecimento formal veio com o AICA Portugal em 2022 e a retrospectiva "Hello! Are You There?" no MAAT, que mapeou a evolução do seu trabalho entre som, fotografia e desenho. Esses marcos confirmaram a relevância de uma artista que, embora tenha começado tardiamente, conseguiu estabelecer uma linguagem visual e sonora que transcende o tempo e as fronteiras geográficas.

O legado da presença e do fluxo

O que permanece após sua partida é a provocação sobre como o presente pode fluir através das palavras. Em entrevistas, Cunha evitava a ideia de uma "ambição artística" tradicional, preferindo descrever sua entrada no mundo da arte como um movimento de necessidade interna. A incerteza que ela cultivava em suas instalações agora se transforma em uma questão aberta para os curadores e pesquisadores: como preservar a imaterialidade do som e do sussurro em um mercado cada vez mais voltado para o objeto tangível?

O futuro da recepção de sua obra dependerá de como as novas gerações interpretarão esses jogos de linguagem que ela tão bem articulou. A ausência de respostas fixas, que era a marca registrada de suas exposições, continuará sendo o convite para que o observador, diante de seus trabalhos, continue a buscar o sentido que, no final das contas, é sempre construído na escuta. Com reportagem de Brazil Valley

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