O som de um ensaio no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, carrega uma vibração que Luiz Calainho conhece há décadas. Para ele, o palco não é apenas um espaço de performance, mas uma engrenagem de um ecossistema que movimenta milhares de empregos e exige uma estrutura de governança tão rigorosa quanto a de qualquer banco. Em conversa com Nilton Bonder, o fundador da holding L21 reflete sobre uma trajetória marcada pela recusa do caminho corporativo tradicional em favor de uma intuição voltada para a arte, transformando o setor cultural em um ativo real da economia nacional.

A vocação como bússola corporativa

A transição de Calainho do marketing da Cervejaria Brahma para a indústria fonográfica na Sony Music, nos anos 80, não foi apenas uma mudança de cargo, mas uma ruptura de paradigma. Enquanto figuras como Marcel Telles tentavam reter talentos para o mundo das commodities e do varejo, Calainho buscava a contramão. Ele percebeu cedo que a indústria musical brasileira de massa — do axé ao sertanejo — não era apenas um fenômeno sociológico, mas um campo de exploração comercial inexplorado. O sucesso não viria de replicar fórmulas, mas de identificar o que estava à margem do mainstream e dar-lhe a escala necessária para a explosão cultural.

O teatro musical como indústria

A criação da Aventura, braço da L21, consolidou a visão de que o teatro musical poderia ser uma indústria robusta no Brasil, e não apenas um nicho de elite. Ao trazer clássicos da Broadway e adaptá-los com sensibilidade brasileira, e posteriormente investir em biografias musicais como as de Elis Regina e Chacrinha, Calainho estabeleceu uma linguagem própria. Hoje, o Brasil ocupa uma posição de destaque global na produção de musicais, provando que o conteúdo local, quando gerido com profissionalismo, possui um apelo comercial perene e escalável.

A infraestrutura da cultura

A estratégia de Calainho transcende a produção de espetáculos e alcança a operação de equipamentos culturais, como o Teatro Riachuelo e a Arena B3. Ao conectar marcas de peso a espaços de cultura, a L21 cria um modelo de sustentabilidade que permite à arte florescer sem depender exclusivamente de subsídios. A economia criativa, que já representa cerca de 3% do PIB brasileiro, ganha corpo quando teatros e centros de exposições são tratados como ativos de infraestrutura urbana, essenciais para a vitalidade das grandes cidades.

O horizonte da intuição

O que permanece em aberto é a capacidade do mercado brasileiro em sustentar esse nível de profissionalização em larga escala. Enquanto a L21 expande suas fronteiras para exposições imersivas no Conjunto Nacional, o desafio é equilibrar a soberania da arte com a exigência de retorno sobre o capital investido. Calainho insiste que a intuição é o guia, mas a estrutura é a base. O futuro do setor parece depender menos de grandes saltos e mais da persistência em tratar o talento brasileiro como o ativo mais valioso de uma economia que ainda está aprendendo a se vender para si mesma.

Se a cultura é a maior potência do Brasil, como sustentar essa arquitetura em um país de tantas instabilidades? A resposta de Calainho sugere que a solução reside na própria alma do negócio: seguir a verdade, mesmo quando o mercado exige o óbvio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech