O Legado Verde de Lula na Amazônia
Desde que assumiu a presidência em janeiro de 2023, Luiz Inácio Lula da Silva tem sido creditado por uma significativa reversão na tendência de desmatamento na Amazônia brasileira. Uma análise recente do Carbon Brief, baseada em modelagens de equipes de pesquisa internacionais, estima que a liderança do petista evitou a derrubada de pelo menos 20.000 quilômetros quadrados de floresta desde sua eleição em 2022. Essa área, comparável em tamanho a estados como Nova Jersey, nos Estados Unidos, ou a países como Eslovênia e Belize, representa um contraponto direto às políticas ambientais de seu antecessor, Jair Bolsonaro, durante cujo governo a perda florestal atingiu níveis alarmantes.
O contraste entre as duas administrações é notável. Enquanto Bolsonaro enfraqueceu regulamentações, desmantelou órgãos de fiscalização e incentivou atividades ilegais, Lula prometeu "desmatamento zero" até 2030 e restaurou planos de ação ambiental. Essa mudança de rumo se reflete nas projeções de queda do desmatamento anual, que sob Bolsonaro mais que dobrou. As estimativas para o governo Lula indicam um recuo para cerca de 5.731 km² em 2025, com a possibilidade de um recorde de baixa em 2026. Contudo, a proximidade com a eleição presidencial, onde a oposição pode se articular em torno de figuras como Flávio Bolsonaro, com propostas consideradas "anti-ambientais", lança uma sombra sobre a continuidade dessas conquistas.
O Cenário de Bolsonaro vs. a Liderança de Lula
Durante a presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022), o agronegócio brasileiro foi amplamente favorecido, e o desmatamento na Amazônia disparou. A legislação ambiental, incluindo o Código Florestal — que exige a preservação de áreas de vegetação nativa em propriedades rurais —, foi negligenciada. Essa falta de fiscalização e o enfraquecimento das instituições ambientais criaram um ambiente propício para atividades ilegais, como extração de madeira e mineração predatória. A análise do Carbon Brief utilizou um modelo que simula um cenário de desmatamento sem a aplicação do Código Florestal, como um reflexo direto da governança sob Bolsonaro.
Em contrapartida, a volta de Lula ao poder trouxe uma nova abordagem. O Ministério do Meio Ambiente, sob a liderança de Marina Silva, intensificou as ações de fiscalização e combate a crimes ambientais. A promessa de "desmatamento zero" e o retorno do Brasil a fóruns climáticos internacionais, como a COP27, sinalizaram um compromisso renovado com a proteção ambiental. A redução drástica nas taxas de desmatamento, embora gradual e ainda imperfeita, demonstra a capacidade de resposta da floresta a uma vontade política consistente. Especialistas consultados pelo Carbon Brief consideram a estimativa de 20.000 km² como "conservadora", sugerindo que o desmatamento real sob Bolsonaro poderia ter sido significativamente maior, especialmente se o cenário eleitoral de 2022 tivesse resultado em uma nova vitória de seu grupo político.
Implicações da Eleição e o Futuro da Amazônia
A eleição presidencial que se aproxima coloca em xeque os avanços ambientais. Com Jair Bolsonaro impedido de concorrer, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, é visto como um dos principais nomes da oposição para a disputa. Caso Lula seja reeleito, a expectativa é de continuidade das políticas "verdes", incluindo a meta de "desmatamento zero". No entanto, a configuração do Congresso Nacional, onde partidos de direita mantêm forte presença, pode criar obstáculos à agenda ambiental, como já ocorreu com vetos presidenciais contornados. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, por outro lado, é vista por muitos especialistas como um risco iminente de "destruição em larga escala" da Amazônia, com potencial retorno a níveis de desmatamento alarmantes e aumento da violência contra povos indígenas.
A influência do agronegócio e da mineração, setores que Flávio Bolsonaro tende a favorecer, é uma preocupação central. A análise do Climate Observatory, que avalia as propostas dos candidatos, aponta Lula com o plano mais robusto em termos ambientais, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta um histórico e propostas consideradas "anti-ambientais". A possibilidade de uma presidência alinhada com governos de direita em países vizinhos, que também priorizam o agronegócio e a mineração, agravaria o cenário para a preservação da maior floresta tropical do mundo. A eleição, portanto, transcende as fronteiras brasileiras, com implicações diretas para o equilíbrio climático global.
Perguntas em Aberto e o Papel do Congresso
Além da disputa presidencial, outros fatores moldarão o futuro da Amazônia. O fim da Moratória da Soja na Amazônia, um acordo voluntário que impedia a compra de grãos de áreas desmatadas após 2008, é um exemplo. A saída de grandes tradings do acordo pode levar a um aumento estimado de 14.000 km² de desmatamento adicional até 2036, segundo estudos. Esse cenário, somado à força do Congresso Nacional, que já demonstrou capacidade de aprovar legislações prejudiciais ao meio ambiente, como a "PL da Devastação", levanta sérias dúvidas sobre a sustentabilidade das políticas ambientais brasileiras.
A consolidação de uma visão onde a proteção ambiental é vista apenas como "preferência política" e não como uma "necessidade crucial para todos" é um dos maiores desafios. A possibilidade de um congresso e uma presidência de direita trabalhando em conjunto poderia ser "devastadora" para a agenda ambiental. A forma como o Brasil equilibrará as demandas econômicas do agronegócio e da mineração com a urgência climática e a proteção da biodiversidade definirá seu papel no cenário global nas próximas décadas. A eleição de 4 de outubro, e possivelmente um segundo turno em 25 de outubro, será crucial para determinar qual caminho o país seguirá.
A eleição presidencial em outubro definirá se os avanços na proteção da Amazônia continuarão ou se o Brasil retornará a um período de desmatamento acelerado. A escolha entre a continuidade da agenda ambiental de Lula e as propostas da oposição terá repercussões globais significativas para o clima e a biodiversidade. O eleitorado brasileiro terá a palavra final sobre o futuro da floresta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





