A ameaça de novas tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros abriu um novo campo de batalha na política nacional, favorecendo a narrativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo dados da pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 47% dos entrevistados concordam com a tese governista de que o senador Flávio Bolsonaro atuou diretamente junto ao presidente americano Donald Trump para viabilizar um possível tarifaço contra o Brasil.

Em contrapartida, a versão defendida pelo parlamentar — de que teria solicitado ao republicano a não adoção de medidas restritivas — convence 35% dos brasileiros. O resultado, de acordo com a reportagem do InfoMoney, sublinha a eficácia do Planalto em vincular a disputa comercial à atuação de aliados de oposição, convertendo um tema de política externa em ativo político para a base petista.

A disputa pela soberania e o PIX

A sondagem também mediu percepções sobre as motivações por trás da possível adoção de tarifas. De acordo com a Genial/Quaest, 46% dos eleitores consideram plausível a explicação de Lula de que um tarifaço seria uma retaliação americana ao avanço do sistema de pagamentos PIX. Já 36% atribuem a pressão tarifária às críticas do governo brasileiro à gestão em Washington.

Essa polarização narrativa indica que a soberania tecnológica e financeira — representada pelo PIX — ganhou centralidade no debate eleitoral. A percepção pública sugere que parte do eleitorado enxerga as tarifas menos como decisão econômica isolada e mais como movimento geopolítico direcionado ao modelo de desenvolvimento brasileiro.

Impacto na intenção de voto

O tema também mexe com as intenções de voto, segundo a pesquisa. Cerca de 39% dos entrevistados afirmaram que a disputa em torno das tarifas aumenta sua disposição de apoiar Lula, enquanto 30% disseram ter maior inclinação por Flávio Bolsonaro. O dado indica que o assunto tem potencial de movimentar segmentos do eleitorado indeciso ou em transição.

Além disso, o levantamento aponta que 47% dos brasileiros acreditam que Lula é hoje o nome que melhor defende os interesses do país, contra 37% que indicam o senador do PL. O debate tarifário, portanto, funciona como teste de credibilidade sobre quem é percebido como mais capaz de proteger a economia nacional diante de pressões externas.

Rejeição ao argumento americano

Outro recorte da Genial/Quaest mostra baixa adesão à justificativa apresentada por Washington para um eventual tarifaço. Apenas 21% dos entrevistados concordam com a premissa de que a relação comercial com o Brasil é injusta e prejudica empresas dos EUA. A maioria, de 57%, rejeita essa avaliação, indicando um descompasso entre a retórica da Casa Branca e a opinião pública brasileira.

O impacto econômico segue no radar: 55% dos brasileiros temem que a adoção de tarifas venha a prejudicar diretamente suas famílias. Já 49% acreditam que Trump deverá manter uma linha de endurecimento tarifário em relação ao Brasil, caso o tema avance, mantendo-o no centro do debate político e pressionando candidatos a explicitarem posições em política externa.

Perspectivas para a pré-campanha

A consolidação do tema tarifário como um dos principais tópicos da pré-campanha levanta dúvidas sobre a duração da vantagem narrativa de Lula. Resta saber se o governo conseguirá sustentar o impacto positivo nas pesquisas caso o cenário econômico se deteriore com a adoção — ou mesmo com a expectativa — de barreiras comerciais.

O ambiente exigirá acompanhamento sobre como a oposição tentará reverter a percepção negativa, especialmente em contexto no qual o conhecimento sobre o assunto já alcança parcela relevante da população. A capacidade de cada lado em gerir expectativas econômicas e comunicar custos e benefícios de suas estratégias externas será determinante nas próximas rodadas de intenção de voto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney