A gestora espanhola Magallanes Value Investors formalizou sua estratégia de alocação para os próximos anos, priorizando empresas com sólida capacidade industrial em detrimento do entusiasmo generalizado com a inteligência artificial. Segundo carta enviada aos cotistas no segundo trimestre de 2026, a firma argumenta que o mercado tem negligenciado negócios intensivos em capital, rotulando-os erroneamente como empresas de baixo crescimento.
Para o diretor de investimentos da casa, Iván Martín, a tese central é que a demanda global por matérias-primas, automação e componentes industriais permanecerá resiliente na próxima década. A gestora sustenta que a dificuldade de replicar ativos físicos e infraestruturas complexas cria um fosso competitivo que o mercado financeiro, frequentemente seduzido por narrativas de curto prazo, ainda não precificou de forma adequada.
O valor da tangibilidade no longo prazo
A leitura aqui é que o mercado financeiro opera sob um viés de novidade que ignora a inércia dos processos produtivos. Enquanto a inteligência artificial domina o sentimento dos investidores, a Magallanes aponta que o desenvolvimento de novas capacidades industriais exige anos de capital intensivo e conformidade regulatória. Esse cenário torna os ativos já estabelecidos extremamente valiosos, pois a barreira de entrada para novos competidores é, em muitos casos, proibitiva ou tecnicamente impossível de superar em curto espaço de tempo.
A gestora enfatiza que, embora as cotações possam oscilar conforme modismos, o motor fundamental da rentabilidade segue sendo a capacidade de gerar lucros e reinvestir capital com eficiência. A estratégia da firma é adquirir esses negócios industriais em momentos de desvalorização, confiando que, no longo prazo, o preço das ações acabará por convergir com a realidade operacional e a geração de caixa das empresas.
Mecanismos de alocação e seleção de ativos
O processo de seleção da Magallanes baseia-se na identificação de empresas com posições competitivas difíceis de replicar. Na prática, isso se traduziu na inclusão de nomes como Saint-Gobain no fundo europeu, justificada pela robustez de sua operação e potencial de valorização. A firma também reforçou participações em empresas como KION, Forvia e RS Group, aproveitando o que considera níveis de preço atrativos frente ao valor intrínseco desses ativos.
Por outro lado, a gestão demonstra disciplina ao realizar lucros. A saída da Aker BP, com retorno superior a 140%, e a desinvestimento em Telecom Italia após uma oferta pública de aquisição, ilustram a execução de uma estratégia que não se apega a posições, mas sim ao ciclo de valor. Movimentos similares foram observados nos fundos ibérico e de microcaps, com a entrada de Tubacex e o ajuste em posições consolidadas como Aena e Inditex.
Implicações para o ecossistema de investimentos
Essa postura da Magallanes reflete uma tensão crescente no mercado global entre o capital voltado para a inovação disruptiva e o capital voltado para a infraestrutura física. Para reguladores e competidores, a valorização de empresas com capacidade industrial instalada pode indicar uma mudança no foco de alocação de risco. Em um contexto de incertezas geopolíticas, a segurança no fornecimento e a soberania produtiva ganham peso, o que pode beneficiar empresas que, até então, eram vistas como "maduras" ou "sem brilho" pelos investidores de tecnologia.
No Brasil, essa tese ressoa com o debate sobre a reindustrialização e o papel das empresas de infraestrutura em um cenário de juros estruturalmente mais altos. O paralelo é claro: quando o custo do capital aumenta e a euforia tecnológica arrefece, o mercado tende a buscar refúgio em ativos que possuem ativos tangíveis e fluxos de caixa previsíveis, desafiando a premissa de que apenas empresas de software ou IA podem gerar valor exponencial.
Perspectivas e incertezas
O que permanece em aberto é a velocidade com que o mercado corrigirá a percepção sobre essas empresas industriais. A incerteza reside na capacidade dessas companhias de manterem taxas de retorno elevadas em um ambiente de custos de energia e logística potencialmente voláteis. A observação constante dos balanços será essencial para validar se a tese da Magallanes se sustenta diante de uma possível desaceleração econômica global.
O futuro dirá se a aposta na "velha economia" será o diferencial de rentabilidade na próxima década ou se a aceleração da inteligência artificial acabará por transformar também a produtividade desses setores industriais, tornando a distinção entre "moda" e "essencial" cada vez mais tênue.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





