A inteligência artificial está saindo da sala de troféus da inovação para assumir uma posição na mesa de estratégia das grandes corporações brasileiras. O consenso, expresso por líderes de Embraer, Magazine Luiza e Volkswagen durante um painel no Rio Innovation Week, é que a fase de experimentação isolada terminou. A nova diretriz é clara: a tecnologia deve gerar impacto mensurável no negócio, fortalecer a competitividade e, idealmente, contribuir para a soberania tecnológica do país.

Para essas companhias, a discussão deixou de ser sobre o potencial da IA para focar em sua aplicação pragmática. Segundo reportagem do portal TIInside, o desafio não é mais criar provas de conceito, mas sim escalar soluções que transformem a operação de ponta a ponta. A era dos pilotos que não saem do papel parece ter chegado ao fim, dando lugar a uma cobrança por retorno sobre o investimento e integração real com as unidades de negócio.

Do piloto à escala

O recado mais direto veio de Dimas Tomelin, Chief Strategy & Innovation Officer da Embraer. Para ele, “o desafio não é fazer prova de conceito. O desafio é escalar.” A visão da fabricante é que ganhos de produtividade só se tornam uma vantagem competitiva duradoura quando se estendem por toda a cadeia de fornecedores. A inovação em uma única empresa tem impacto limitado; o verdadeiro salto ocorre quando o ecossistema inteiro se torna mais eficiente.

Essa mentalidade é compartilhada por André Fatala, VP de Tecnologia do Magazine Luiza. Ele adverte contra a armadilha de usar IA para acelerar processos ruins. “Se você apenas colocar inteligência artificial em um processo antigo, vai automatizar um processo ruim”, afirmou. No Magalu, a abordagem foi repensar a engenharia de software para que a IA desenvolva aplicações a partir de arquiteturas pré-definidas, uma estratégia que, segundo ele, pavimenta o caminho para a criação da Magalu Cloud, uma aposta em infraestrutura nacional para democratizar o acesso à tecnologia.

O produto como software

Em nenhum setor a transformação é tão palpável quanto no automotivo. Antonio Carnielli Junior, diretor sênior da Volkswagen do Brasil, resumiu a mudança de paradigma: “O carro está migrando para software, conectividade e eletrificação.” A afirmação sinaliza uma revisão completa no perfil do engenheiro da indústria, que agora precisa dominar simulações digitais e arquitetura de software tanto quanto a mecânica tradicional.

A consequência prática é uma aceleração nos ciclos de desenvolvimento. Veículos como o Volkswagen Tera, segundo o executivo, foram concebidos quase inteiramente em ambiente virtual antes da produção de qualquer peça física. Essa digitalização do processo produtivo não apenas reduz custos e tempo, mas redefine a própria natureza do produto final, que passa a ser uma plataforma de software sobre rodas.

O fio condutor entre as diferentes indústrias é a percepção de que a inovação deixou de ser um centro de custo para se tornar uma alavanca de negócio. A questão que permanece em aberto é quão rápido e profundamente essa mentalidade, hoje defendida pelos líderes de mercado, conseguirá se disseminar pelo restante do tecido empresarial brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside