O recado de parte relevante da Faria Lima para o investidor que olha as ações do Magazine Luiza com otimismo é direto: “não é agora”. A mensagem, verbalizada por Christian Keleti, gestor da AlphaKey Capital, durante um painel do Santander nesta semana, cristaliza o sentimento de aversão ao risco que domina as mesas de operação diante da persistência dos juros altos e da deterioração do cenário macroeconômico.

A varejista, que já foi uma das estrelas da bolsa brasileira, tornou-se um caso emblemático da atual seletividade do mercado. A análise dos gestores não se concentra em uma falha operacional específica da companhia, mas na sua alta exposição a um ambiente de crédito caro e consumo reprimido — uma combinação que torna a aposta em sua recuperação um movimento de alto risco no curto prazo.

A defesa antes do ataque

Para Keleti, da AlphaKey, o momento atual exige uma postura de “defender o dinheiro”, não de fazer apostas arriscadas. A recomendação é clara: priorizar companhias líderes em seus setores e com balanços mais sólidos, como Rede D’Or no setor de saúde ou Cyrela na construção civil, em detrimento de empresas mais alavancadas. A lógica é que, mesmo com o preço dos papéis em baixa, o risco de novas quedas é considerável. “Prefiro pagar melhor” por um ativo de qualidade a comprar um desconto incerto, afirmou o gestor.

Essa visão é compartilhada por Christian Faricelli, da Absolute Investimentos. Ele admite que há muitas ações “muito baratas” na bolsa, mas aponta para a fragilidade da economia doméstica, com famílias e empresas altamente endividadas. O temor é que o cenário force o Banco Central a cortar juros pelo motivo errado — uma recessão —, o que agravaria a situação das companhias mais frágeis. O barato, nesse contexto, pode ficar ainda mais barato.

O dilema das oportunidades

O pessimismo cria um paradoxo para o investidor. A ausência de grandes compradores — fundos de pensão e investidores locais estão com baixa exposição, segundo Faricelli — contribui para manter os preços deprimidos, mas também sinaliza uma falta de confiança generalizada na recuperação da economia. O que parece uma oportunidade pode ser uma armadilha de valor.

Nem mesmo as exportadoras, que poderiam servir de proteção, são um porto seguro. Faricelli citou o caso da PRIO, uma posição que a gestora apreciava, mas que se tornou mais arriscada com a possibilidade de o governo aumentar a tributação sobre o petróleo. O episódio ilustra a dificuldade de encontrar teses de investimento resilientes no cenário doméstico atual.

A mensagem que ecoou do painel é que o playbook de investimento mudou. A disciplina e a preferência por qualidade e baixa alavancagem substituíram a busca por crescimento a qualquer custo. Para papéis como os do Magazine Luiza, a virada não depende apenas de sua execução, mas de uma melhora macroeconômica que, na visão desses gestores, ainda não está no horizonte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times