O burburinho em torno de Ibrahim Mahama não é apenas sobre telas e instalações; é sobre a própria tessitura de uma comunidade. Quando o artista ganês fala de seu sucesso, ele não se refere apenas a prêmios como o ArtReview Power 100 ou o Art Basel Gold Award, mas sim a um coletivo que inclui mulheres de mercado, artesãos, assistentes de estúdio e historiadores. Essa filosofia de "coletividade" é a espinha dorsal de sua prática, uma abordagem que, embora enraizada em Gana, agora ressoa com força em Paris, na Fondation Cartier. Mahama não é apenas um criador; ele é um arquiteto de espaços, um reconstrutor de narrativas e um catalisador para o intercâmbio cultural.

A exposição "The Harvest Season", que ocupa a Fondation Cartier em Paris, é descrita pelo próprio artista como a mais ambiciosa de sua carreira. O projeto, que se estende por todo o edifício, é um testemunho de sua habilidade em transpor a essência de seu trabalho, que é intrinsecamente ligado à Gana, para um contexto internacional. A mostra apresenta uma nova iteração de "Parliament of Ghosts", uma instalação que utiliza materiais encontrados como assentos de trem descartados, sacos de juta e arquivos governamentais. Desta vez, a obra é enriquecida com cerca de 200 tronos reais restaurados do Império Asante. Essa adição levanta questões provocativas sobre a apropriação cultural e o retorno de artefatos africanos para a Europa, invertendo a narrativa usual: em vez de serem exibidos em vitrines, os tronos são apresentados como "objetos vivos", convidando o público a interagir e a refletir sobre suas histórias e propósitos originais.

O projeto "Things Fall Apart", inspirado no romance de Chinua Achebe, é outra peça central da exposição. Ele reconstrói a antiga Fábrica de Vidro Aboso, um empreendimento industrial iniciado pelo primeiro presidente de Gana, Kwame Nkrumah, em 1966. Mahama adquiriu a fábrica abandonada e, com o apoio da Fondation Cartier, está a reconstruindo em espaços em Gana, como o Red Clay Studio em Tamale e um edifício colonial britânico. A instalação em Paris é apenas um prelúdio; a fábrica será permanentemente reinstalada em Kumasi, onde Mahama planeja fundar uma nova instituição. Essa iniciativa sublinha o compromisso do artista em revitalizar o patrimônio industrial e nacional de Gana, transformando o que foi esquecido em centros de arte e educação.

Mahama não se limita a reconstruir o passado; ele também expande o presente e o futuro de Gana através da arte. Sua prática vai além das instalações e vídeos, englobando a construção de infraestrutura artística em Tamale, como o Red Clay Studio e o Savannah Centre for Contemporary Art. Essas instituições democratizam o acesso à arte, especialmente para comunidades marginalizadas. Em Paris, essa abordagem colaborativa se manifesta na inclusão de trabalhos de outros artistas e coletivos, como James Barnor e CATPC, reforçando a ideia de que a arte é um empreendimento coletivo. O curador Aby Gaye-Duparc destaca que a exposição busca criar um diálogo entre a arquitetura histórica do edifício da Fondation Cartier e o trabalho de Mahama, que explora a complexa relação entre a Europa e a África Ocidental no século XIX.

A jornada de Mahama não tem sido isenta de desafios. Recentemente, ele foi vítima de um ataque violento por uma unidade especial da polícia em Tamale. O apoio comunitário que recebeu após o incidente foi, segundo ele, "fantástico" e "esmagador", reafirmando o profundo significado de seu trabalho para as pessoas de seu país. Apesar da decepção com a condução do caso pelas autoridades, Mahama prefere canalizar sua energia para a parte positiva de sua prática, focando na comunidade e no impacto global de sua arte. Ele busca "esticar as sensibilidades africanas" e contribuir com a arte do século XXI, demonstrando que a arte, quando enraizada na coletividade e no propósito, tem o poder de transcender fronteiras e revitalizar legados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews