A nova presidente do governo das Ilhas Baleares, Marga Prohens, reconheceu publicamente o “mal-estar” de parte da população com a saturação turística que asfixia a região, especialmente sua capital, Palma de Maiorca. A declaração, feita após uma audiência com o Rei Felipe VI, veio na esteira de manifestações populares contra o excesso de turistas e o impacto no custo e na qualidade de vida local.

Contudo, a admissão do problema veio acompanhada de uma manobra política clássica: a transferência de responsabilidade. Segundo reportagem da Forbes España, Prohens culpou a gestão anterior, de esquerda, por um crescimento “absolutamente desbocado”. O número-chave de sua acusação são as 115 mil novas vagas de alojamento turístico criadas nos últimos oito anos, um volume que ela classificou como “totalmente inassumível” para o território insular.

O paradoxo do crescimento

A acusação de Prohens, embora politicamente conveniente, expõe o paradoxo no coração das economias dependentes do turismo. As 115 mil vagas não surgiram no vácuo; representam anos de uma política que, sob outra ótica, poderia ser vista como de fomento econômico e geração de empregos. O que antes era celebrado como crescimento, agora é diagnosticado como doença. A “turistificação” — termo que descreve a transformação de bairros e cidades para servir exclusivamente aos visitantes, em detrimento dos moradores — deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma realidade palpável na forma de aluguéis impraticáveis e serviços públicos sobrecarregados.

O dilema de Maiorca não é único. De Lisboa a Barcelona, de Amsterdã a Florianópolis, cidades-cartão-postal enfrentam a mesma tensão. O debate, frequentemente simplificado em uma disputa partidária, na verdade reflete uma falha estrutural. O modelo de crescimento infinito aplicado a recursos finitos — como espaço, água e tranquilidade — mostra seus sinais de esgotamento. A questão que se impõe é se é possível modular o sucesso sem destruir o que o tornou possível em primeiro lugar.

A sustentabilidade como única saída

Ao culpar o passado, a nova presidente compra tempo e se posiciona como a agente do equilíbrio. O verdadeiro teste, no entanto, será sua disposição para implementar medidas que efetivamente limitem o crescimento, mesmo que isso signifique frear indicadores econômicos de curto prazo. As soluções são conhecidas: moratórias para novos hotéis, regulação rigorosa de aluguéis de curta temporada e investimentos para diversificar a economia para além do turismo.

O desafio é que todo o ecossistema econômico, das companhias aéreas aos pequenos comércios, está calibrado para a expansão contínua. Mudar o rumo de um transatlântico em alta velocidade exige mais do que discursos. A pressão popular, expressa nas ruas, oferece o capital político necessário para uma mudança de curso. Resta saber se haverá vontade de usá-lo.

A crise em Maiorca é um microcosmo. A troca de acusações é o roteiro previsível, mas a questão de fundo permanece: quem terá a coragem de redesenhar o modelo antes que o paraíso se perca por completo? A resposta definirá não apenas o futuro das Baleares, mas de inúmeros destinos globais que flertam com o mesmo limite.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España