O tubarão kitefin, maior vertebrado bioluminescente conhecido, pode ter uma estratégia de caça mais sofisticada do que se imaginava. Um novo estudo, publicado na revista iScience, sugere que o brilho emitido pelo animal não serve apenas para camuflagem, mas também como uma espécie de farol para localizar presas nas profundezas do oceano.

A pesquisa, liderada pelo biólogo marinho Julien Claes, da Université Catholique de Louvain, desafia a interpretação tradicional da contra-iluminação. A leitura aqui é que a evolução pode ter equipado o predador com uma ferramenta de dupla função: uma para se esconder e outra, simultaneamente, para encontrar sua próxima refeição.

Um farol biológico

A hipótese se baseia em uma análise detalhada da luz emitida por espécimes capturados na Nova Zelândia. Enquanto o brilho na parte inferior do corpo é consistente com a camuflagem — mimetizando a luz fraca da superfície para evitar ser visto por baixo —, a luz emitida lateralmente, especialmente na cabeça, não se encaixa nesse modelo. Ela se espalha para os lados, sugerindo uma função de iluminação do ambiente.

Esse "farol biológico" resolveria um paradoxo. O kitefin é o tubarão com a natação mais lenta já registrada, mas sua dieta inclui presas ágeis. A capacidade de iluminar o fundo do mar permitiria uma aproximação discreta e a detecção de alimento sem depender de velocidade, uma tática de emboscada refinada pela evolução.

O enigma da nadadeira dorsal

O que torna o caso ainda mais complexo é a nadadeira dorsal, que também emite luz. Essa característica contradiz frontalmente a ideia de camuflagem, pois transformaria o tubarão em um ponto luminoso visível lateralmente, quebrando sua silhueta. Para os pesquisadores, a função desse brilho é um mistério.

As especulações incluem comunicação entre indivíduos da mesma espécie ou uma forma de atrair presas, mas são apenas conjecturas. O estudo reconhece sua principal limitação: as análises foram feitas em animais fora de seu habitat. A confirmação da hipótese da caça depende de observações diretas do comportamento do tubarão em seu ambiente natural.

Por ora, o tubarão kitefin serve como um lembrete de que as adaptações da vida abissal são mais complexas do que parecem. A bioluminescência pode ser menos um interruptor de "esconder/mostrar" e mais um sistema multifuncional que ainda estamos começando a decifrar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital