A história da família Kennedy é inseparável de uma aura de tragédia que transcende gerações. Desde os primórdios da ascensão política e social de Joseph P. Kennedy Sr. até os dias atuais, a dinastia americana tem sido marcada por perdas devastadoras, alimentando a persistente crença em uma "maldição Kennedy". Assassinatos de figuras proeminentes, acidentes aéreos fatais, mortes prematuras por overdose e doenças, além de acidentes bizarros, tecem um fio condutor sombrio através da narrativa da família mais famosa da política americana.

A origem dessa narrativa se entrelaça com a própria ambição e o sucesso de Joe Kennedy Sr., um homem que construiu um império financeiro e político com uma determinação implacável. Conspiracionistas e observadores atentos sugeriram que os métodos por vezes questionáveis de Joe Sr. para acumular sua fortuna — incluindo supostas atividades ilícitas como o contrabando de álcool durante a Lei Seca — poderiam ter lançado uma sombra sobre seus descendentes. Essa visão, que busca um padrão moral por trás da desgraça, ecoa a antiga crença grega de que a hybris, o excesso de orgulho ou ambição, atrai a punição divina.

O Legado de Ambição e as Primeiras Tragédias

A primeira grande tragédia a atingir a família foi com Rosemary Kennedy, filha de Joe e Rose. Nascida com dificuldades intelectuais e propensa a convulsões, sua condição foi mantida em segredo pela família para preservar a imagem pública. Em uma tentativa de controlar seu comportamento e evitar o estigma social, Joe Sr. autorizou uma lobotomia em 1941. A cirurgia, considerada um procedimento experimental e muitas vezes brutal na época, teve consequências desastrosas, deixando Rosemary permanentemente incapacitada, incapaz de falar ou andar e confinando-a a uma instituição pelo resto de sua vida, até 2005. Este evento precoce já prenunciava a fragilidade e as perdas que marcariam o destino dos Kennedy.

O primogênito, Joseph P. Kennedy Jr., foi preparado desde cedo para seguir os passos do pai e alcançar a presidência. Um estudante e atleta promissor, ele se alistou na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Sua vida foi interrompida em 1944, durante uma perigosa missão de bombardeio secreta. O avião que pilotava explodiu em pleno voo sobre o Canal da Mancha, matando ele e o copiloto. Sua morte prematura, antes que pudesse realizar seu potencial político, foi sentida como uma quebra na ordem natural das coisas, um presságio sombrio para o futuro da família.

A Ascensão de JFK e a Consolidação da "Maldição"

A tragédia continuou a assombrar a família com a morte de Kathleen "Kick" Kennedy em 1948. Ela faleceu em um acidente de avião na França, poucos anos após o casamento com um homem protestante, uma união que causou atrito com sua mãe, Rose. Seu marido já havia morrido em batalha, e Kathleen estava em um relacionamento com um homem casado quando o avião que os transportava caiu nas montanhas. Apenas seu pai compareceu ao funeral, evidenciando o isolamento e a dor que permeavam a família.

O foco de Joe Sr. então se voltou para seu filho John F. Kennedy, que viria a se tornar o 35º presidente dos Estados Unidos. Sua eleição em 1960 elevou a família ao ápice da realeza americana, mas o ápice foi brutalmente interrompido. Em 22 de novembro de 1963, John F. Kennedy foi assassinado em Dallas, Texas, aos 46 anos. A comoção mundial foi imensa, e sua viúva, Jacqueline Kennedy, cunhou a expressão "Camelot" para descrever a era idealizada de sua presidência, um período que terminara de forma trágica e abrupta.

Foi após o assassinato de JFK que a noção de uma "maldição Kennedy" ganhou força. Robert F. Kennedy, irmão de JFK e então procurador-geral, começou a traçar paralelos entre as desgraças de sua família e as tragédias da antiga Grécia. Ele questionava o porquê de tantas perdas e se a família, em sua busca por poder e glória, havia "ultrapassado os limites" (overreached), atraindo assim o infortúnio. Em 1968, o próprio Bobby Kennedy foi assassinado em Los Angeles, logo após vencer a primária democrata para a presidência, morrendo aos 42 anos, apenas cinco anos depois de seu irmão. Essa dupla de assassinatos presidenciais consolidou a ideia de que algo sombrio pairava sobre os Kennedy.

A Nova Geração e a Persistência do Infortúnio

Nos anos seguintes, a família continuou a enfrentar perdas significativas. Em 1969, o Senador Ted Kennedy sobreviveu a um acidente de carro na ilha de Chappaquiddick, onde sua passageira, Mary Jo Kopechne, morreu afogada. Ted Kennedy, em um discurso televisionado, chegou a questionar abertamente se "alguma maldição terrível pairava sobre todos os Kennedys", marcando a primeira vez que um membro da família abordou publicamente o tema.

As décadas seguintes trouxeram mais dor: David Kennedy, filho de Bobby, morreu de overdose em 1984; Michael Kennedy, outro filho de Bobby, faleceu em um acidente de esqui em 1997; e em 1999, John F. Kennedy Jr., sua esposa Carolyn Bessette-Kennedy e sua cunhada morreram em um acidente de avião perto de Martha's Vineyard. Mais recentemente, a neta de Robert F. Kennedy, Saoirse Kennedy Hill, morreu de overdose acidental em 2019, aos 22 anos. Em 2020, Maeve Kennedy Townsend McKean e seu filho de 8 anos, Gideon, morreram em um acidente de canoa.

Essa sequência ininterrupta de tragédias, que desafia as probabilidades estatísticas, continua a alimentar a narrativa da "maldição Kennedy". Embora muitos atribuam essas mortes a fatores mais tangíveis como acidentes, doenças, vícios e as consequências de decisões pessoais, a ressonância cultural da "maldição" persiste. A família Kennedy, com sua combinação única de privilégio, poder e infortúnio, se tornou um estudo de caso sobre a fragilidade da vida, mesmo para aqueles que parecem ter tudo. A história deles nos lembra que, para além das aparências de sucesso e glamour, a tragédia pode atingir qualquer um, independentemente de seu nome ou legado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider