Chuvas torrenciais de monção no Nepal levaram o rio Therang Khola a transbordar, destruindo casas e, crucialmente, duas pontes de suspensão que conectam vales na região do Manaslu. Com isso, uma das rotas de trekking mais populares do mundo, o Circuito Manaslu, está efetivamente interditada, forçando autoridades locais a pedirem o adiamento de todas as viagens não essenciais.

A interrupção ocorre no início da temporada de outono de alpinismo, um período vital para a economia local. A ironia é que, enquanto o turismo de trekking está paralisado, as expedições comerciais para escalar o oitavo pico mais alto do mundo continuam. Segundo reportagem do ExplorersWeb, os 348 alpinistas estrangeiros com permissão para a montanha simplesmente contornarão a destruição, voando de helicóptero diretamente para o acampamento base. O desastre natural se torna um mero inconveniente logístico para quem pode pagar.

Um ecossistema sob pressão

O episódio no Manaslu não é um fato isolado, mas um sintoma agudo da vulnerabilidade do Himalaia às mudanças climáticas. A fonte da inundação atual foram as chuvas de monção, um padrão sazonal que se torna cada vez mais intenso e imprevisível. Contudo, a região enfrenta uma ameaça ainda mais sistêmica: o GLOF (glacial lake outburst flood), ou a cheia repentina por transbordamento de lago glacial.

A reportagem menciona uma catástrofe do tipo ocorrida há poucas semanas, que deixou milhares de mortos e desaparecidos em outra área do Nepal. Esses eventos ocorrem quando o calor acelera o derretimento de geleiras, formando lagos instáveis contidos por barreiras de gelo ou rocha. Quando essa barreira se rompe, um volume colossal de água é liberado de uma só vez. A frequência crescente desses fenômenos transforma a infraestrutura e a vida na região num cálculo de risco permanente.

Duas velocidades de turismo

O uso de helicópteros para superar a crise expõe uma fratura no modelo de turismo da região. O trekking é um negócio capilarizado, que sustenta pousadas, guias e carregadores em vilarejos remotos. Quando a trilha fecha, essa economia local colapsa. As expedições de alta montanha, por outro lado, operam numa lógica diferente: mais capitalizadas e dependentes de logística aérea, elas conseguem se isolar dos problemas no solo.

Enquanto trabalhadores locais se apressam para reabrir uma trilha antiga como rota alternativa, os clientes das grandes operadoras internacionais já estão em processo de aclimatação, tendo chegado por ar. A resiliência local, expressa na tentativa de reconstruir a rota, compete com uma solução de força bruta que beneficia poucos e concentra a receita nas mãos de empresas de aviação e agências estrangeiras. A questão que fica é a sustentabilidade de um modelo que, para funcionar, precisa literalmente passar por cima dos efeitos cada vez mais visíveis da crise do clima.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ExplorersWeb