A Marguerite Casey Foundation anunciou um plano agressivo de doações que prevê a distribuição de pelo menos US$ 500 milhões ao longo da próxima década. A iniciativa, que eleva o patamar de desembolso anual da entidade, surge como uma resposta direta ao cenário de crise enfrentado por organizações sem fins lucrativos sob a administração do presidente Donald Trump. Segundo reportagem da Fortune, o movimento busca preencher lacunas deixadas por cortes federais e pela descontinuidade de programas governamentais que, historicamente, sustentavam o ecossistema do terceiro setor nos Estados Unidos.
A estratégia de Carmen Rojas, CEO da fundação, marca uma ruptura com a prática tradicional de filantropia, que costuma limitar os gastos anuais ao mínimo de 5% exigido pelo Internal Revenue Service (IRS). Ao optar por avançar sobre o próprio fundo patrimonial, a organização sinaliza que a missão institucional de longo prazo não deve ser utilizada como justificativa para a inércia em momentos de necessidade urgente. A decisão reflete uma mudança de postura de um setor que, diante de ameaças regulatórias e fiscais, começa a questionar o equilíbrio entre a preservação de ativos e a eficácia social imediata.
O dilema do payout mínimo e a resiliência dos fundos
A maioria das fundações privadas opera sob uma lógica de perpetuidade, mantendo a maior parte de seus ativos investidos para garantir a longevidade da entidade. Contudo, essa prática tem sido alvo de críticas crescentes por parte de ativistas e gestores, como Abigail Disney, que argumentam que fundações funcionam, na prática, como instituições de bem-estar social isentas de impostos. Para esses críticos, tratar o limite de 5% como um teto, em vez de um piso, compromete a própria razão de ser do capital filantrópico em períodos de instabilidade.
Para a Marguerite Casey Foundation, a resiliência dos seus investimentos provou ser um argumento a favor da expansão das doações. Daniel Gould, vice-presidente de investimentos, aponta que, mesmo após o aumento nos repasses em 2025, o fundo patrimonial demonstrou capacidade de recuperação em mercados financeiros favoráveis. A gestão também reorientou sua carteira, desinvestindo de setores como prisões privadas, fabricantes de armas e credores predatórios, alinhando a alocação de capital aos valores defendidos por seus beneficiários.
Filantropia como ferramenta de intervenção política
O modelo da fundação, criado com recursos do fundador da UPS, Jim Casey, é focado em organizações de base que pressionam por governos mais responsivos. O suporte financeiro não se limita a causas assistenciais, mas abrange veículos de jornalismo de advocacy e experimentos estaduais voltados à entrega de serviços públicos universais, como creches. A lógica de Rojas é clara: a filantropia deve atuar de forma ofensiva, provando que o governo pode — e deve — entregar resultados tangíveis para a população.
Essa abordagem contrasta com o que muitos líderes do setor chamam de "postura defensiva", focada apenas em reagir a ameaças. Ao financiar projetos que demonstram a eficiência de políticas públicas, a fundação tenta contornar o vácuo deixado pela retirada do Estado. Contudo, essa atuação não é isenta de riscos, especialmente em um ambiente onde o governo federal tem demonstrado hostilidade a organizações que monitoram grupos extremistas ou que desafiam a agenda administrativa atual.
Tensões regulatórias e o efeito inibidor
As implicações dessa nova fase da filantropia são complexas. O ambiente de incerteza, marcado por ameaças de revogação de status de isenção fiscal e investigações governamentais contra ONGs, cria um "efeito inibidor" em todo o setor. John Palfrey, presidente da MacArthur Foundation, alerta que o precedente aberto por inquéritos contra organizações como o Southern Poverty Law Center pode desestabilizar financeiramente entidades inteiras apenas pela suspeita de irregularidades, afastando doadores e investidores.
A pressão sobre o terceiro setor é exacerbada pela crescente demanda por serviços sociais básicos, como assistência alimentar e saúde, que foram impactados por mudanças nas políticas de Medicaid. Enquanto fundações como a Robert Wood Johnson e a Kate B. Reynolds também elevaram seus repasses, a maioria das ONGs ainda enfrenta dificuldades severas para acessar um pool de recursos que, embora abundante em ativos totais, permanece retido em estruturas de governança excessivamente cautelosas.
Perspectivas para um ecossistema sob pressão
O futuro da filantropia americana parece caminhar para uma bifurcação. De um lado, instituições que optam por manter a prudência financeira como escudo contra o escrutínio político; de outro, fundações que, como a Marguerite Casey, apostam na mobilização de recursos como forma de resistência institucional. O que resta saber é se o aumento no volume de doações será suficiente para compensar o desmonte de programas federais de larga escala.
A capacidade dessas fundações de sustentar o ritmo de gastos dependerá, em última análise, da performance dos mercados e da resiliência das próprias ONGs em face de um ambiente regulatório mais hostil. A experiência da Marguerite Casey servirá, possivelmente, como um teste de estresse para o modelo de filantropia baseada em dotação, levantando questões sobre o papel dessas instituições na defesa da sociedade civil organizada.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





