Uma nova biografia busca reposicionar a escultora brasileira Maria Martins como a figura central nos últimos 20 anos da produção de Marcel Duchamp. No livro “Impossible: The Love Affair Between Marcel Duchamp & Maria Martins and the Artwork It Inspired”, o historiador Francis M. Naumann argumenta que o caso de oito anos entre os dois artistas foi o motor criativo por trás da enigmática obra final de Duchamp, “Étant donnés”.

Segundo uma análise do portal Hyperallergic, a obra de Naumann, embora crucial para iluminar a troca entre os dois, cai em uma armadilha antiga: a de reduzir uma artista potente à condição de musa. Ao focar na narrativa do romance e na caracterização de Martins como uma “femme fatale”, o livro arrisca ofuscar a força e a autonomia de sua produção como uma das mais importantes escultoras surrealistas de sua geração.

A musa e o mestre

O encontro entre Martins e Duchamp ocorreu em Nova York, em 1943. Ela tinha 49 anos, era casada com o embaixador do Brasil nos EUA e uma artista em ascensão. Ele, aos 56, já era uma figura canônica. O caso que se seguiu, segundo Naumann, foi uma intensa troca criativa. O próprio título do livro, “Impossível”, é uma referência a uma escultura em bronze de Martins, de 1946, que captura a tensão de duas figuras que se atraem mas não podem se tocar — um reflexo, na visão do autor, da relação dos dois.

No entanto, a análise do Hyperallergic aponta um desequilíbrio problemático na abordagem de Naumann. O autor refere-se a ela pelo primeiro nome, “Maria”, enquanto Duchamp é tratado pelo sobrenome, um gesto que sutilmente reforça uma hierarquia. Pior, o livro se entrega a especulações sobre a vida sexual da artista, descrevendo-a como uma “sedutora” que “enlaçava seus homens como uma vênus papa-moscas”. Essa caracterização, além de bizarra, desvia o foco de sua contribuição intelectual e artística para uma parceria que era, acima de tudo, profissional.

Para além do romance

Ironicamente, o próprio livro de Naumann oferece as ferramentas para refutar sua tese redutora. Ele teoriza que “Étant donnés” não foi inspirado apenas pelos desenhos que Duchamp fez de Martins nua, mas também pela admiração que ele tinha por suas esculturas audaciosas, como “Huitième voile” (1948). A postura erótica e aberta da figura na obra de Duchamp ecoa peças da própria Martins, sugerindo uma influência que vai muito além da paixão carnal e entra no campo do diálogo estético.

O caso de Maria Martins é emblemático da dificuldade que a história da arte tem em lidar com a obra de mulheres que se relacionaram com homens famosos. A narrativa do “grande artista e sua musa” é mais simples, mas quase sempre imprecisa. O esforço para reconhecer a influência de Martins sobre Duchamp é válido, mas torna-se um desserviço quando feito ao custo de sua própria autonomia criativa.

A questão que o livro de Naumann, talvez sem querer, levanta não é o tamanho da influência de Martins sobre Duchamp. É sobre quando a história da arte será capaz de analisar a produção de uma mulher como Maria Martins em seus próprios termos, reconhecendo que sua força não dependia de inspirar um homem — ela era, por si só, o evento principal.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic