Mariana Mazzucato, professora de economia da inovação na University College London, defende que a eficácia governamental depende da capacidade de articular visões ambiciosas e públicas. Segundo a economista, governos perdem relevância ao se limitarem a slogans sobre crescimento, ignorando a necessidade de definir propósitos claros para a economia. A tese central, explorada em recentes discussões sobre o projeto de missões, sugere que o Estado deve ser um agente ativo de transformação, e não apenas um regulador que atua após as falhas do mercado.
Para a pesquisadora, a visão de um governo deve ser palpável, permitindo que a sociedade compreenda os objetivos e os meios para alcançá-los. Essa abordagem desafia a ortodoxia fiscal que, segundo a autora, muitas vezes sufoca o investimento público necessário para solucionar problemas estruturais. O argumento é de que o progresso econômico e o bem-estar social não são excludentes, mas sim partes de uma mesma agenda estratégica que exige coragem política e clareza de propósito.
A falácia da neutralidade estatal
Historicamente, a teoria econômica predominante posicionou o Estado como um ente que deve intervir apenas quando o mercado falha. Mazzucato contesta essa visão, argumentando que o setor público não apenas corrige problemas, mas molda mercados inteiros. Ao assumir um papel de liderança, o governo deixa de ser um espectador passivo para se tornar o arquiteto de novos ecossistemas de valor.
Essa perspectiva reflete a necessidade de superar a rigidez das regras fiscais que, embora busquem estabilidade, frequentemente impedem o financiamento de inovações de longo prazo. A análise sugere que a falta de uma missão clara torna o governo vulnerável a crises de legitimidade, especialmente quando as promessas de crescimento não se traduzem em benefícios sociais concretos para a população.
O mecanismo das missões públicas
O conceito de economia orientada por missões propõe que grandes desafios — como a crise climática ou a desigualdade — sejam tratados como motores de inovação. Em vez de subsidiar setores de forma genérica, o governo deve estabelecer metas ambiciosas que exijam a colaboração entre o setor público, empresas privadas e a sociedade civil. Esse modelo cria incentivos para que o capital privado se alinhe a objetivos de interesse coletivo.
O sucesso dessa estratégia depende da capacidade de articulação pública, garantindo que os riscos sejam compartilhados, mas que os benefícios gerados pela inovação retornem à sociedade. Mazzucato enfatiza que, sem essa estrutura de governança, o investimento público corre o risco de ser capturado por interesses privados imediatistas, perdendo seu potencial transformador.
Tensões entre teoria e prática política
As implicações dessa visão são profundas para gestores públicos e formuladores de políticas. A transição de um modelo de gestão estritamente contábil para um modelo de missão exige uma reestruturação das prioridades orçamentárias. Observadores notam que governos ao redor do mundo enfrentam dificuldades em manter o foco nessas missões diante de pressões políticas de curto prazo e escândalos que desviam a atenção do debate público.
Para o ecossistema brasileiro, o debate ressoa na discussão sobre o papel do BNDES e das agências de fomento na promoção de uma economia verde e inclusiva. A lição de Mazzucato é que a eficácia não depende apenas de recursos, mas da clareza com que o Estado comunica e persegue seus objetivos, evitando que o projeto seja diluído em burocracias ineficientes.
O futuro da governança econômica
Permanece incerto se governos conseguirão resistir às tentações de atalhos populistas para priorizar missões de longo prazo. A capacidade de inspirar a sociedade a acreditar em mudanças estruturais será o teste definitivo para as lideranças políticas nesta década.
O que se observa é um crescente interesse em modelos que integrem a sustentabilidade fiscal com o investimento em missões de alto impacto, um desafio que exige novas métricas de sucesso além do crescimento do PIB. A questão central, portanto, não é apenas quanto se gasta, mas para qual finalidade o Estado direciona sua energia e autoridade.
O debate sobre a economia para o bem comum está apenas começando a ganhar tração nos círculos de poder, testando a resiliência das instituições democráticas em equilibrar demandas imediatas com a visão necessária para o futuro. Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





